
Este é mais um processo
Tem até CD nos autos
(Proc. nº 71001770171)

Dos mais formosos olhos, mais formoso
Rosto, qu’entre nós há, do mais divino
Lume, mais branca neve, ouro mais fino,
Mais doce fala, riso mais gracioso:
D’um angélico ar, de hum amoroso
Meneo, de hum spirito peregrino
S’acendeo em mim o fogo, de qu’indino
Me sinto, & tanto mais assi ditoso.
Não cabe em mim tal bemaventurança.
He pouco hua alma só, pouco hua vida;
Quem tivesse que dar mais a tal fogo.
Contente a alma dos olhos agoa lança
Pólo em si mais ter, mas he vencida
Do doce ardor, que não obedece a rogo
António Ferreira séc. XVI

Post retirado do Blog "Kaos"

La luna vino a la fragua
con su polisón de nardos.
El niño la mira mira.
El niño la está mirando.
En el aire conmovido
mueve la luna sus brazos
y enseña, lúbrica y pura,
sus senos de duro estaño.
—Huye, luna, luna, luna.
Si vinieran los gitanos,
harían con tu corazón
collares y anillos blancos.
—Niño, déjame que baile.
Cuando vengan los gitanos,
te encontrarán sobre el yunque
con los ojillos cerrados.
—Huye, luna, luna, luna,
que ya siento sus caballos.
—Niño, déjame; no pises
mi blancor almidonado.
El jinete se acercaba
tocando el tambor del llano.
Dentro de la fragua el niño
tiene los ojos cerrados.
Por el olivar venían,
bronce y sueño, los gitanos.
Las cabezas levantadas
y los ojos entornados.
Cómo canta la zumaya,
¡ay, cómo canta en el árbol!
Por el cielo va la luna
con un niño de la mano.
Dentro de la fragua lloran,
dando gritos, los gitanos.
El aire la vela, vela.
El aire la está velando.
Garcia Lorca - Romanceiro Gitano

Pela estrada desce a noite
Mãe-Negra, desce com ela...
Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guisos,
nas suas mãos apertadas.
Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.
Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...
Tem voz de noite, descendo,
de mansinho, pela estrada...
Que é feito desses meninos
que gostava de embalar?...
Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar?...
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...
Mãe-Negra não sabe nada...
Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo
Mãe-Negra!...
Os teus meninos cresceram,
e esqueceram as histórias
que costumavas contar...
Muitos partiram p'ra longe,
quem sabe se hão-de voltar!...
Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaço,
bem quieta bem calada.
É a tua a voz deste vento,
desta saudade descendo,
de mansinho pela estrada...
Alda Lara (Angola 1931-1962)
Obs: Este poema foi escrito aos 21 anos, quando Alda cursava medicina em Portugal. Mãe - Negra é Africa; e o pema retrata a saudade da terra natal.

Foto de Lobo Duarte
Hoje o post é sobre o José Lobo Duarte, um amigo pintor e poeta de Coimbra, ainda pouco conhecido, e do qual tive a honra de apresentar o primeiro livro na RTP2. É possivelmente um dos maiores poetas surrealistas portugueses, a par de Cesaryny, e vai editar novo livro, longe das parangonas dos media, a que é avesso. Aqui ficam dois textos (revistos por mim) do poeta; deliciem-se, porque a posteridade vai falar dele:
I - Tenho um pensamento.
Tenho um pensamento; e não tenho coisa alguma, que não seja ouvir, esquecer; e ainda essa tua musica! Eu sei lá onde começa a eternidade! São as palavras que limitam; não os teus braços… O teu corpo…
O grito caiu-te nas mãos? Também nas minhas, como gotas de água. Tenho um pensamento; mas és tu que me guias, que tens os olhos tristes e os lábios doces; e é daí a poesia pura, mas basta a natureza e o instinto dos homens para, que isto e o mais, se acrescente á definição de poesia.
Tenho um pensamento; e é assim uma despedida; mas a musica não deixa que vá; e mais forte ainda é a esperança dos homens. Se eu partir, como poderei ver a esperança dos homens, assim sentida, na perspectiva física, na dúvida que há com a morte e com a fé?
Tenho um pensamento e não tenho, porque sou um pássaro que voa; um momento que escapa. Morremos quando todos os momentos voam do nosso corpo para a paixão e regressam ao momento original, em que não será falsa a pronúncia do amor.
Tenho um pensamento e não tenho; este absurdo, mata-me! Falam-me da guerra e do rapaz nu com uma flor, que afinal não era.
A menina do terceiro andar, que anda na catequese, disse que era um pénis…
Era o milagre do pénis!
Que trazes nesse regaço?
São flores senhor…
Flores!? Mas que espanto esse,
que vejo no teu corpo!
A menina do terceiro, era afinal, e este era o assunto, um menino com pénis, localizado naquele ponto.
Tenho um pensamento e não tenho; e isso me diverte e repugna.
São pénis, senhor…
E toda esta afirmação, com reticencias para o milagre da vida, que é esta saliência. Nasceu disto esta nação; e afinal é o cu, a aparência da portuguesa condição.
Tenho um pensamento, uma folha de trinta e cinco linhas e uma corda...
Amanhã a vida anda á roda!
II- A água que posso imaginar, na ideia do desejo que tenho de ti.
Atravesso o rio, as paredes de água e a sede do teu corpo, a tua cidade onde da janela me chamas; e o meu pensamento anda sempre em viagem; e os pássaros levam em viagem, a minha vontade de ir a outros lugares.
Estou mais a teu lado, quando me afasto da tua presença e trago de volta o paraíso ao teu corpo. Atravesso a água e bebo toda a água que posso imaginar, na ideia do desejo, que tenho de ti.
O meu pensamento anda sempre em viagem. Canto as canções que não me pertencem; e tu entras nessas canções e nas paisagens, que ficam dentro de mim, quando fecho os olhos e as faço desaparecer.
A tua cidade chama-me; e também tu, quando o fazes e me continuas a iluminar!

Relatório que fez Misael, anjo enviado à Terra, no ano 2009 da era de Jesus de Nazaré:
A Terra era uniforme e vazia e as trevas cobriam o abismo. Deus decidiu fazer o céu, a terra e a luz.
Traçou um esboço a guache creme. Primeiramente pintou uma aguada em toda a área, deixando as zonas claras com a cor do vazio. A cor foi obtida misturando branco opaco, negro-de-fumo, anil e um toque de carmesim. Pintou tons mais escuros da mesma mistura sobre a aguada inicial, ainda húmida. As áreas suaves do céu, mais claras, obteve-as passando uma esponja. As colinas, os fundos e alguns recortes do céu foram acrescentados depois de o resto ficar seco.
O efeito dos raios solares e o efeito do nevoeiro obteve-os com aguadas transparentes de branco opaco e um pouco de ocre amarelo.
Afastando-se do cavalete, Deus viu que tudo isto era belo. Então pintou todos os animais que existem nos oceanos, na terra e no céu; abençoou-os e ordenou que se multiplicassem.
E apreciando a magnífica obra que saíra do seu pincel, ficou satisfeito. Disse então: «façamos o homem à nossa imagem e semelhança, para que domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos e sobre todos os répteis que rastejam sobre a terra».
Depois, entre os Querubins do sétimo céu que presidem às galáxias do universo, pôs Uriel num lugar proeminente, encarregando-o do departamento da via láctea, sistema solar, coadjuvado por vários arcanjos e anjos numa cadeia hierárquica de importância em função dos continentes, terra, mar e céu, por que respondiam.
E nesta hierarquia celeste, atribuiu Deus ao arcanjo Rafael a Terra, a Gabriel a porção da Terra que viria a ser Portugal e a mim, Misael, uma língua de terra da Malcata à Marofa.
Certa manhã, enfadado da rotina da corte celestial, desceu Uriel até mim e acordou-me:
- Misael, a estupidez e as discórdias dos teus protegidos irritaram o Senhor; de forma que se reuniram em concílio os querubins para decidirem se deviam castiga-los ou destruí-los. Vai a essa terra, examina tudo e conta-me o que vires, para que decida conforme o que me relatares.
- Mas, chefe – observei, ainda ensonado- não conheço ninguém naquele fim do mundo…
- Melhor ainda – retorquiu Uriel - assim serás imparcial.
Disfarçando-me de viajante, montei uma nuvem, e parti. Ao cabo de alguns dias, encontrei finalmente nas margens de um rio um grupo de operários que aparelhavam umas pedras; e junto a eles um grupo de três homens que orientavam os trabalhos.
Dirigi-me primeiro a um dos operários que encontrei. Falei-lhe, e perguntei que obra era aquela em que trabalhavam.
- Não sabemos - replicou o operário; e apontando para o grupo dos três homens - mas se queres saber, pergunta ali aos capatazes.
Acerquei-me então dos capatazes e perguntei-lhes que obra era aquela que faziam.
-É uma ponte – respondeu o primeiro - .
-Qual ponte, qual carapuça – respondeu o segundo- aqui vai ser um açude.
-Nada disso – respondeu o terceiro – um moinho é que faz aqui falta.
Espantado, misturei-me então com os operários, e conquistando-lhes a simpatia, pude assim saber que, por causa daquela discórdia que durava há anos, se acumulavam toneladas de pedra na margem com grande dispêndio de recursos e trabalho, sem que se visse algum resultado daquilo.
Naquela terra, alias, - explicaram os operários – todos sofriam do mal de inveja, não se entendendo para coisa nenhuma. Por isso nada se fazia de útil para o bem comum, com grave prejuízo de todos.
Despedi-me dos operários e desci o rio, numa extensão de uma légua, atravessando tapadas, terras férteis cobertas de mato e giestas, alcançando um alto aberto com uma vista panorâmica, sobre uma paisagem deserta e calcinada: Numa ligeira elevação, a torre de menagem de um castelo, erguendo-se sobre os telhados vermelhos do casario, cuja ruína ofendia a vista.
Chegando à cidade, depois de outro quarto de légua a pé, atravessei as ruas completamente desertas e fui dar a uma praça onde, sentada na escadaria do chafariz, a meio do recinto, vi uma velha que gozava o sol da tarde.
Abeirando-me, perguntei-lhe:
-Boa velha, que é feito dos habitantes desta terra?
- Saiba o senhor – retorquiu a velha, levantando os olhos da renda em que trabalhava – que os novos partiram e os velhos foram morrendo.
O sol começava a descer no horizonte. Seguindo caminho, pela rua principal, que tinha um aspecto abandonado e desagradável, entrei num terreiro onde brincava uma criança. Aproximando-me:
- Qual o teu nome?
-João…
-E fazendo-lhe uma festa – brincas a quê?
-Ao faz de conta…
- E não avistando mais ninguém – Com quem?
-Com os meus amigos…
- Mas que amigos?
-Amigos de faz de conta…
Afeiçoando-me à criança, a única que vi no meu passeio, temi que aquela terra fosse condenada. Sentando-me num banco de pedra que ali havia, pus-me a cismar sobre o relatório que havia de apresentar a Uriel.
Eis como me desenvencilhei para apresentar esse relatório. Chamei a criança e levei-a a Uriel.
- Destruirias – disse – aquela terra, apesar deste único inocente?
Uriel compadeceu-se, deixando tudo como estava. E apanhando uma corrente ascendente, juntando-se aos outros querubins, desapareceu no espaço sideral.
É que para inferno –sentenciou Uriel- já têm que chegue!

Conversão de S. Paulo a Caminho de Damasco (exposição do Seminário de Almada)
«Deus não existe». E não existe porque nunca se deu ao trabalho em descer à dimensão espacio-temporal para falar com o grande génio da humanidade que é Saramago.
É este o argumento idiota de um sofrível escritor que pensa ser o Nobel um certificado de autoridade intelectual e inteligência “erga omnes”.
A existência de Deus, até nem é uma questão de fé mas de lógica. Mas inteligência e rectidão intelectual, pelos vistos são talentos que Deus não distribuiu a Saramago. Por isso, releva-se-lhe a falta, porque não se lhe pode exigir o que manifestamente não tem.
Não se lhe exigindo inteligência e rectidão intelectual, muito menos se lhe pede a clarividência mística do porteiro da Cartuxa de Évora, que ao argumento do nascimento do mundo pela explosão do Big Bang a partir do nada, contrapunha:
-Pois… Mas se nasceu do nada, quem continha esse nada?
As provas de São Tomás a respeito de Deus, são tão brilhantes, que conseguem convencer quem tenha o mínimo de inteligência e de rectidão intelectual. Muito antes dele, homens de uma grande rectidão intelectual, como Sócrates, Platão, Aristóteles, Séneca, Virgílio e Marco Aurélio chegaram à conclusão da existência de Deus.
Sócrates, às portas da morte rezava: «Causa das causas, tem piedade de mim…»
Cleanthes, discípulo do estóico Zenão, cantava o seguinte hino: « Altíssima Glória dos Céus, Senhor de variado nome eterno, perpétuo seja o teu poder! Abençoado sejas, ó grande arquitecto da criação, que ordenas todas as coisas segundo as tuas leis! Evocar o teu nome é próprio e justo para o mortal, pois somos nascidos de ti…»
Séneca descrevia o Supremo Poder como «Deus Todo Poderoso», ou «Sabedoria incorpórea, ou Espírito Santo, ou ainda Destino», numa antecipação da doutrina cristã da Santíssima Trindade, de que a Igreja suprimiu o destino.
A existência de Deus é uma verdade evidente em si mesma, porque na preposição “Deus existe”, o predicado identifica-se com o sujeito, porque Deus é o próprio ente.
Mas em relação a nós, que desconhecemos a natureza divina, ela não é evidente, precisando de ser demonstrada. Mas o que se demonstra, não é evidente e o que é evidente não precisa de ser demonstrado.
O que tornaria à partida paradoxal a demonstração da existência de Deus. Por isso São Tomás diz que a existência de Deus é antes de mais, um artigo de fé e como tal não precisa de ser demonstrado.
Mas mesmo assim, podemos chegar a Deus pela via da demonstração, das quais São Tomás distingue dois tipos:
a) Demonstrandum propter quid (devido a quê) que se baseia na causa e parte do anterior (causa) para o posterior (efeito)
b) Demonstrandum quia (porque) que arte do efeito para conhecer a causa.
Quando vemos um efeito pela sua causa, por aquele acabamos por chegar a esta, pois o efeito depende da causa e de algum modo, tem qualidades da causa.
Assim, embora Deus não seja evidente para nós, é demonstrável pelos efeitos que dele conhecemos. Como dizia S. Paulo «A existência de Deus […] pode ser conhecida pela razão (Rom. I, 19).
A fé assenta e pressupõe um conhecimento natural e racional, assim como a verdade pressupõe a mentira e a perfeição a imperfeição. Só quem conhece ou entende a demonstração filosófica da existência de Deus, aceita a sua existência com uma fé esclarecida.
Ora, não primando Saramago pela inteligência e honestidade intelectual, admiração seria que admitisse a existência de Deus sequer pela via da fé.
Querem ver como pela via da razão São Tomás (1.ª parte da Suma Teológica art. 3.º da questão 2) demonstra a existência de Deus?
Basta a prova do movimento no universo:
As coisas mudam; é um facto. Uma pessoa nasce, cresce e morre; as estações do ano sucedem-se; um regato corre e seca, etc.
Na mudança das coisas podemos distinguir as qualidades já existentes e as qualidades que podem vir a adquirir pela mudança. Aquelas são as existentes em acto; estas são as existentes em potência.
Vg. Uma parede branca tem a brancura em acto e o vermelho em potência porque pode ser pintada desta cor.
A mudança, ou movimento é a passagem de potência (x) a acto (x) traduzida na seguinte fórmula:
M = PX---»AX
Vg. Pintar de vermelho a parede branca.
Ora nada passa de potência a acto sem uma entidade estranha que tenha aquela qualidade em acto.
Vg. A parede branca só fica vermelha se receber o vermelho da tinta.
Concluindo; tudo o que estava em potência e muda é movido por outrem. E para mover é preciso ter uma qualidade em acto. No que decorre que é impossível que uma coisa esteja ao mesmo tempo em potência e acto para uma mesma qualidade.
V.g. Se a parede está branca em acto, ela tem potência para ser vermelha. Se ela está vermelha em acto ele não tem potência para ser vermelha.
É por isso impossível que uma coisa seja ao mesmo motor e móvel para uma mesma qualidade; isto é, que uma coisa se mude a si mesma. Resumindo: tudo o que muda, é por acção externa.
E as mudanças podem dar-se numa sequência definida de mudanças que pode exemplificar-se na seguinte fórmula invertida:
PX(6)---»AXPX(5)---»AXPX(4)---»AXPX(3)--
Definida, porque se fosse indefinida, não havia um primeiro ente que originasse a sequência, o que seria absurdo porque para se produzir movimento num ente é preciso sempre outro com a qualidade em acto e porque tinha que a potência preceder o acto e nunca podia haver uma acto anterior à potência, impossibilitando-se assim o movimento.
Portanto a sequência do movimento não pode ser indefinida, e aquela tem de ser originária de um ente que seja apenas em acto, que seja o primeiro motor.
Este primeiro motor não pode ser movido, porque é puro acto (tem todas as perfeições) sem potência passiva, porque se a tivesse seria movido por um anterior, como é lógico.
Este Acto Puro, sem nenhuma potência passiva é Deus.
E como Acto Puro, não tem passado nem futuro; é, simplesmente. Por isso quando Moisés perguntou a Deus qual era o seu nome este respondeu-lhe: «Eu sou Aquele Que é», e quando Jesus discutiu com os fariseus lhes disse também: «Antes que Abraão fosse, Eu sou» (Jo. VIII, 58)
Caramba! Nem é preciso ser mais inteligente que Saramago… Os movimentos dão-se no espaço e tempo que são mensuráveis e como tal a sua sequência tem que ser finita, o que é comprovado pela teoria do Big Bang, pela lei da entropia e até pela teoria da evolução.
Deus portanto existe. É o ser em Acto Puro que não muda, independentemente da vontade de Saramago.
Até o porteiro da Cartuxa de Évora, que foi das pessoas mais simples que alguma vez conheci, no seu misticismo chegou à conclusão de que Deus é «Aquele que tudo contém…»
Mesmo a parvoíce de Saramago!

"Há muito tempo que não escrevo. Têm passado meses sem que viva, e vou durando, entre o escritório e a fisiologia, numa estagnação íntima de pensar e de sentir. Isto, infelizmente, não repousa: no apodrecimento há fermentação." FP
![]()
Estas férias li um magnífico poeta que entoa como ninguém a simplicidade da vida humana, resumindo-a ao amor. Celebra o amor à maneira das Vestais da Grécia antiga, onde o vinho adquire a função sagrada de induzir o êxtase dos sentidos. Aqui fica um dos seus poemas, na grafia do século XIX:
Andáva a lua nos céus
Com o seu bando de estrellas.
Na minha alcova,
Ardiam vellas,
Em candelabros de bronze.
Pelo chão, em desalinho,
Os velludos pareciam
Ondas de sangue e ondas de vinho.
Elle olhava-me scismado;
E eu,
Placidamente, fumava,
Vendo a lua branca e núa
Que pelos céus caminhava.
Aproximou-se; e em delirio
Procurou ávidamente,
E ávidamente beijou
A minha boca de cravo
Que a beijar se recusou.
Arrastou-me para Elle,
E, encostado ao meu hombro,
Fallou-me d'um pagem loiro
Que morrêra de Saudade,
Á beira-mar, a cantar...
Olhei o céu!
Agora, a lua, fugia,
Entre nuvens que tornavam
A linda noite sombría.
Déram-se as bocas n'um beijo,
--Um beijo nervoso e lento...
O homem cede ao desejo
Como a nuvem cede ao vento.
Vinha longe a madrugada.
Por fim,
Largando esse corpo
Que adormecêra cansado
E que eu beijára loucamente
Sem sentir,
Bebia vinho, perdidamente,
Bebia vinho... até cahir.
António Botto
-- Pife, pufe, pafe, pefe
Pafe, pefe, pife, pufe --
A cacholeta no chefe --
-- Pife, pufe, pafe, pefe
Estoure como um tabefe
E o ventre de raiva entufe --
-- Pife, pufe, pafe, pefe
Pafe, pefe, pife, pufe!
Carlos de Souza
foto recebida por mail, e que, segundo o mesmo, é de 1986
A JOSÉ PINTO DE SOUSA
PERSONAGENS
JOANA - psicóloga
MARIDO
CAMPOS - político
MANUELA- política
A cena passa-se em Lisboa
Atualidade.
Acto Único
Sala, secretária, relógio de mesa, etc., etc.
JOANA, MARIDO (Vestidos para cerimónia e prontos para sair.) UMA PACIENTE (Que logo sai, à porta do fundo.)
JOANA - Sim, senhora; sim, senhora! Avie essa receita. Marcamos nova sessão para daqui a oito, pela mesma hora.
PACIENTE – E estes comprimidos são para tomar como de costume? (exibe o papel da receita.)
JOANA – Reduz a dose… meio cumprimido ao deitar e chega!
PACIENTE- Concerteza senhora doutora ( sai.)
MARIDO (Entrando por uma porta interior e sentando-se.) – Sempre entras nas listas desta vez?
JOANA- Duvido…
MARIDO - Porquê?
JOANA – O Louçã ainda está de trombas por causa da campanha!
MARIDO – Para que te meteste nessa treta?
JOANA (Ainda passeando.) - E quem imaginava que o Soares estava acabado?
MARIDO – Bem te avisei…
JOANA – Se não for no Bloco, vou noutro… Verás!
MARIDO - Fia-te na Virgem e não corras.
JOANA - Estamos atrasados para sair…
MARIDO (Consultando o relógio de mesa.) - Há duas horas e dois minutos.
JOANA (Embonecando-se ao espelho.) - Creio que não chegamos a tempo.
MARIDO - E o táxi na porta há tanto tempo? Vamos?
MARIDO - Vamos. (Vão saindo. Batem palmas.)
AMBOS - Bateram.
MARIDO - Quem é?
CAMPOS (Fora.) - Sou eu.
JOANA - Eu quem?
CAMPOS (No mesmo.) - Um amigo.
JOANA - Entre quem é.
MARIDO – (Espreitando à janela.) É o Campos das obras públicas! Conheces… (Entra Campos. Pisa macio e fala descansado.)
Cena II
CAMPOS (À porta do fundo.) - Dás licença, joaninha?
JOANA - Entra. (Vai outra vez por a mala na secretária.)
CAMPOS (Entrando e sentando-se numa poltrona que deve estar no meio da cena.) - Não te incomodes. Estou muito bem. E tu como tens passado desde a campanha do velho?
JOANA - Bem, obrigado. O que pretendes?
CAMPOS - Ah! Passava na rua… Vais no bloco?
MARIDO - Que bloco?
CAMPOS – O de esquerda, qual havia de ser?
JOANA – Não.
CAMPOS - Pois estás com azar!(Sinais de impaciência em joana e Marido.) O Louçã ainda não esqueçeu as presidenciais…(Recosta-se na poltrona.) Estou a ver…
JOANA (Interrompe-o.) – Ó Campos, temos muita pressa e não podemos perder tempo. Íamos sair quando chegaste...
CAMPOS (Erguendo-se.) - Nesse caso… Fica para outro dia... Eu vim só trazer um recado, mas... (Cumprimenta.) Joana... Caro amigo... (Vai saindo.)
JOANA - Vem cá; explica já agora o que pretendes.
CAMPOS (Voltando-se e preparando-se como para um discurso, sibilino.) – Somos amigos…
JOANA – Nem tanto….
CAMPOS – Há um lugar em aberto na lista por Coimbra… Que me dizes?
JOANA – Digo-te o quê?
CAMPOS – Estarias interessada?
JOANA - E tu a dar-lhe!
MARIDO - Deixa-o para lá. (Vai para junto de Joana.) Que maçador! Não chegaremos a tempo.
JOANA – E quem faz o convite?
MARIDO (Olhando o relógio.) – Estamos atrasados.
JOANA - Estamos com pressa...
CAMPOS – O nosso primeiro… É evidente…
JOANA – Não sei… Assim de repente… Bem vês!...
MARIDO (Olhando o relógio.) – Estamos atrasados.
CAMPOS– Se aceitares… Arranja-se mais um tacho de bónus…. Que dizes?
JOANA – Não sei…
MARIDO (Olhando o relógio.) – Que seca!
CAMPOS – Assim na tua área… Que achas?
JOANA - Passa bem.
CAMPOS – Mas, Joana…
MARIDO - Viva. (Volta-lhe as costas.)
CAMPOS – Olha que te arrependes… (Saída falsa.)
JOANA - Safa!
MARIDO – Vamos, Vamos quanto antes! Pode vir outro... (Vão saindo.)
CAMPOS (Voltando.) – Já agora…
JOANA - Outra vez?
MARIDO - Assustou-me até!
JOANA – (Agarrando a mala.)Que pretendes agora?
CAMPOS – E que dizias com um lugarzinho no governo também?
AMBOS: Irra!
CAMPOS — Tableau. (Desaparece.)
Cena III
Os mesmos e Manuela
JOANA - Vês, homem; vês como uma pessoa perde a cabeça?
MARIDO - Sim, sim, mas vamos, anda daí!
JOANA (Caindo na poltrona.) - E que dor de cabeça me fez este gajo!...
MARIDO - Espera... vou buscar a garrafinha de água-flórida. (Sai e volta com a garrafinha.)
JOANA - Depressa... depressa, homem! (O marido esfrega-lhe as frontes com água-flórida.) Bem... chega... aliviou... Aí! que ferroadas! deita a garrafinha em cima a mesa e vamos, vamos! (O marido deita a garrafinha sobre a mesa e vai dar o braço a Joana.)
MARIDO - Vamos! (Saem e voltam.) Esqueci-me das chaves. (Entra à direita baixa.)
JOANA (Falando para dentro.) Que demora, homem, que demora! Ainda há- de vir mais alguém, verás! (Passeia.) Então não achas essas chaves! Aí! minha cabeça! (Quebra-se alguma coisa dentro.) O que foi isso?! O que foi isso?! (Corre também para a direita baixa.)
MARIDO (Dentro.) - O meu frasco de água de colónia!
JOANA (Dentro.) - Que pena!
MARIDO (Dentro.) - Ah! cá estão as chaves! (Voltam à cena, de braço dado e dirigem-se para a porta.)
JOANA- Já estou cansada. (Procura na mala.) Não tenho lenço.
MARIDO - Oh que maçada! Quanto mais pressa, mais vagar. (Sai correndo pela direita baixa.)
JOANA – Vê na cómoda!
MARIDO (Voltando com um lenço na mão.) - Toma, toma... Gaita! (Dá-lho.)
JOANA - Vamos! (Encaminham-se para a saída. Batem à porta.)
AMBOS - Não!...
JOANA (Fora de si.) - Não estou em casa!
MANUELA (Espreitando.) – Dão licença?...
AMBOS – Outra?...
JOANA (Caindo extenuada na poltrona.) - Uf!
Cai o Pano.

Foto retirada do Panoramio
Olhos azuis
Aquosos como um rio,
Ora levando as hortas,
Ora secando no leito;
Difícil era saber onde acabava o homem
E começava a água...
Pois estes Olhos d’agua,
Vermelhos da lama e lodo
Do Poço da Andorinha,
Descendo o Pindelo,
Engrossando o Côa,
Mansos desaguaram
No mar.
Por onde me perco
Vale dos Caídos