Joaquim Correia, caracterizava há cem anos o povo da raia da seguinte forma:
«Povo religioso, sem grandes fanatismos, é, como os vizinhos espanhóis, alegre, divertido, sentimental e apaixonado pela música, poesia e pelos touros».
Esta frase resumindo psicologicamente o povo ribacudano, foi escrita na transição do seculo XIX para o XX, e assim sendo, refere-se ao seu tempo, não forçosamente ao actual.
O ethos, caracter de um povo, sentimento vital, depende das relações fundamentais dos homens que o compõem: o mundo, o outro e a transcendência. É justamente a efectividade do próprio corpo, os poderosos impulsos animais que o governam, a fome, o impulso sexual, a velhice, a morte, que determinam o sentimento vital de um povo e sua relação com o meio.
E em cada época apresenta-se um novo e diferente desafio, e, é próprio do ser humano dar a resposta adequada conforme o lugar, tempo, costumes, etc. Cada grupo, aos poucos, cria um modo próprio habitual de compreender o mundo; a isto é que se chama ethos.
Portanto o ethos de um povo, o modo como vê o mundo e se relaciona com ele, a origem dos seus valores, as normas que estruturam a sociedade, os indivíduos que a compõem, os costumes, a moral, o mundo simbólico e mítico que sustentam a sua vida, é diferente, consoante o contexto espácio-temporal.
De facto, o ethos emerge num mundo cultural, de um grupo, num período da história. As pessoas, no dia-a-dia diante das coisas adquirem hábitos, atitudes, modo de agir, e dão significados às coisas e actos. Isto constitui uma maneira de ser e de habitar o mundo. É a maneira como cada homem e cada cultura vivem o ser.
E como é óbvio, havendo história do ser, forçosamente há história do ethos; Diferindo a sociedade ribacudana actual, da do tempo de Joaquim Correia, lógico é que o ethos que ele definiu como sendo o do povo de Riba-Côa, não é o mesmo hoje.
Especificamente a Riba-Côa do tempo presente de Joaquim Correia, caracterizava-se por uma sociedade rural, essencialmente agrícola, de fronteira, isolada, católica, tradicional e analfabeta, assente num território razoavelmente povoado, com a pirâmide etária equilibrada, climaticamente inóspito e pobre.
Estas condicionantes do meio, sobretudo o caminho que diariamente o agricultor fazia para as lides do campo, onde recolhia tudo o que tem substância em seu redor, o enigma do perene e do grande, do céu e da terra, penetrando o homem e convidando-o a uma longa e serena reflexão sobre a criação, é que contribuíram para o ethos do povo de Riba-Côa, como o definiu Joaquim Correia. E isto não deferiu muito, durante séculos, até meados do século XX.
Mas esta perspetiva, à excepção da pobreza, das condições climáticas e de algumas manifestações de religiosidade, não se repete hoje: Temos uma sociedade rural, mas que já não vive da agricultura, instruída nas camadas mais jovens, mas fortemente envelhecida, num território desertificado.
Resumidamente, porque o espaço de um post ou de um artigo de jornal não permite aprofundar, a sociedade ribacudana desde há vários séculos e até meados do século XX, era essencialmente agrícola, o que condicionava particularmente as suas manifestações culturais e hábitos.
Hoje é uma sociedade cada vez mais desenraizada da terra, e como tal, perdendo as manifestações culturais e hábitos daquele tempo, à medida que desaparecem as gerações mais velhas, ainda criadas naquela tradição.
A situação de penúria mantem-se. Mas no tempo de Joaquim Correia o sustento de uma terra inóspita impunha aos seus habitantes uma forma de vida, coincidente com o ciclo agrícola, e uma experiência própria de vivências do quotidiano para superar a necessidade de comer e viver. O estado de alma que caracterizava esta existência era a angústia, um sentimento positivo provocado pela necessidade de suplantar o estado estético, a sua matéria, finitude, e alcançar o estado ético, mais próximo do seu fim espiritual e da infinitude, que o impele a procurar permanentemente as possibilidades de realização, numa acção sobre o seu destino e o tempo futuro. A poesia de Leal Freire é a manifestação ética, sublime e única, da totalidade experiencial, da relação com o sagrado, conexão com o universo, do homem ribacudano deste tempo.
Mas o homem ribacudano de hoje abandonou a rabiça do arado, já não tem o contrabando como alternativa de subsistência, e ainda não encontrou outro modo de vida, não tendo para comer e viver outro caminho, senão o da emigração. Por isso voltou-se sobre o seu próprio vazio, que o assalta sob a figura do Tédio, um sentimento negativo, pelo qual o homem, perante as possibilidades envolventes que lhe permitem a realização do seu fim, nem se apercebe dessas possibilidades. Uma total ausência de vontade, uma incapacidade de ver as possibilidades que lhe permitem superar o estado estético. Uma estagnação no tempo do não ser, uma incapacidade de futuro.
O tédio, como sentimento negativo da alma, anda associado à melancolia, pois esta, mais não é que o sentimento que, perante as possibilidades, as vê, mas se recusa a aceita-las.
O Tédio associado à melancolia gera o vazio da alma. E foi este vazio de alma que arruinou o homem de Riba-Côa. Ele perdeu o caminho em que aprendeu a essência da pobreza; a tal necessidade de subsistência, geradora da angústia, que lhe aguçou o engenho e lhe permitiu sobreviver na terra inóspita de fronteira.
Esta é a pior das pobrezas, porque é a que nasce da incapacidade de pensar verdadeiramente, de escutar atentamente o ethos, que está no já pensado e dito e de distinguir em ambos o único e o antigo, transformando esta escuta num saber.
E como é possível captar o ethos? É através e indo além das evidências. É indo além da historicidade das manifestações de grupos, buscando captar o ser. Essa captação do ser dá-se dialeticamente, como algo dinâmico, sempre num renovado “vir a ser”/ “poder ser”.
Essa dialética, como dizia um certo autor, «faz-se no diálogo com o outro, o “face a face”, numa negação da totalidade firmando a finitude. É nas manifestações espontâneas, nas relações simples entre sujeitos que o ethos aflora. Neste vasculhar de relações quotidianas percebe-se o ethos de um povo, num saber que brota de experiências fecundas. Nas relações valorativas e normativas que permeiam contextos sociais, políticos e culturais». As manifestações culturais, as realizações colectivas e de grupo, são um bom exemplo de ethos manifestado.
Só se descobre o ethos, dinamizando as relações de alteridade dos indivíduos, pelas quais o espirito subjectivo de cada um procura objectivar-se nos outros e no meio e regressa a si trazendo dessa viagem ao mundo dos homens e das coisas a partilha de sentimentos comuns que o identificam com uma comunidade.
Numa sociedade melancólica, dominada pelo tédio, de total ausência de vontade, individualista e egoísta, não se manifesta o ethos, o impulso vital que permite a uma comunidade “vir a ser”/”poder ser”!...
O homem de Riba-Côa hoje é profundamente melancólico... E é precisamente aqui que está a razão do seu não futuro, do seu não “poder ser”/ “vir a ser” como povo!
E a sua maior tragédia nem é este vazio de alma, a estagnação no tempo presente do não ser; mas o estar refém de uma elite dirigente incapaz de fomentar, escutar e interpretar este ethos.
É ao pico da garrocha que a índole bovina, generosa e forte, do povo ribacudano se revela. É na provocação e na adversidade que o povo ribacudano age.
Foi ao forcão, não no pasto, que este boi aprimorou a raça; foi no jugo, não à manjedoura, que ele robusteceu o coração.
«Melancólico de alma, índole bovina, só picando-o, ele se move!»
Por isso, esta é para mim a verdadeira frase que caracteriza o povo raiano.
Os meus dias, os meus gastos dias, agora que me falta álcool no copo e não posso desabafar no livro, não posso vingar-me completamente nas palavras por a solidão ter agarrado tempo de mais a minha juventude. Os meus dias, os meus gastos dias levados como um galope de cavalo que revolve a terra e que mostra em segredo a distancia de eu não ter corpo e de já não ter pensamento. Eu fico um pouco alegre por ninguém saber a idade do rio. Nunca ninguém pergunta sobre a idade dele, nalgum romance pode surgir um por de sol e um homem que se apaixona e não arrasta a margem dos anos para o seu peito enamorado e jovem. Os meus dias, os meus gastos dias, agora que me falta salpicar o rosto de água salgada e fumar o amarelo cigarro enquanto o fumo è uma nuvem ou um pássaro doente que me olha enquanto eu olho o diário. Estou com o rio, não estou perto dele, na verdade não estou com ele, mas falo-lhe quando os homens ficam fechados e as mãos não se abrem, mesmo que não esteja com ele, ele dá-me água e limpa-me os meus olhos tristes e mesmo que tenham sido muitas vezes aquela è a vez em que eu sou criança e sinto vontade de mexer os braços da vida e de ser tão completo como uma cor a germinar o céu. Os meus dias, os meus gastos dias, agora que por mim passam as estações e eu deixei de inventar aquela que todos os dias me amava quando eu não acreditava e agora não acredito nas palavras mas quero o fogo e as pessoas pois tenho frio e è melhor um pouco de calor, è melhor quando aceito este momento e consigo chorar porque o rio não me faz perguntas e o vento atira-me para a terra quando já não consigo dançar com a vida. Agora que os meus gastos dias vão se aproximando eu tento uma longa viagem, podem as estrelas acompanhar-me e podes tu lembrar num relance de olhos que a eternidade è o livro que fica e a gota do vinho que resta no copo e tu escutarás a mesma musica e do resto fica a sombra e o pó dos caminhos selvagens. Os meus dias os meus gastos dias, já não tenho sangue para verter mas se ainda puder ouvir vidas de encantar e utopias de não sentir morrer. Ò meu amigo ò minha amiga deixa-me o vinho e o tabaco e o perfume, só isso sobre a terra, quero renascer e se a chuva cair que o rio me proteja e a noite tenha o direito de me abandonar. Os meus dias, os meus gastos dias, agora que me falta álcool no copo e não posso desabafar completamente no livro, nem vingar-me nas palavras que fazem o ódio nos homens. Ò meu amigo ò minha amiga deixa-me o vinho ou umas asas para voar se eu tiver coragem para me lançar da janela infinita. Os meus dias, os meus gastos dias, dias gastos a procurar e a esconder, dias em que se tentou fazer de novo o amor e o teu corpo febril ficava no meu e havia um espaço entre o desejo que eu tinha e o teu modo de experimentares a mão da natureza e a minha mão no teu sexo. Os meu dias, os meus gastos dias, a cama onde ainda cheiro o teu corpo que espera e nós agora juntos na mesma esperamos que seja o momento de ficarmos dissolvidos no mesmo coração, no mesmo habito de entrelaçar nos dedos as nossas seguras duvidas do amor e da vida e da morte absoluta que è o prazer de tudo isto. Os meus dias, os meus gastos dias agora que me falta ver um cão a dormir no livro sujo e o vagabundo a vomitar nas escadas do museu de arte contemporânea, agora que o cão me ama e o vagabundo não me julga e agora que ainda há álcool no copo e a fogueira ainda está acesa, Ò minha amiga ò meu amigo peço as vossas mãos, não as vossas palavras, mas as vossas mãos, assim talvez a minha viagem e o meu segredo possa ficar entre mim, vocês e o rio.
Lobo Duarte

in "Kaos"

(A Délio)
Lembra-te de conservar uma mente tranquila
na adversidade, e na boa fortuna
abstém-te de una alegria ostentosa,
Délio, pois tens que morrer,
e ainda que hajas vivido triste em todo momento
ou ainda que, deitado em retirada erva,
nos dias de festa, hajas disfrutado
das melhores riquezas de Falerno.
Para quê ao enorme pinho e ao prateado ao álamo
Lhes agrada unir a hospitalária sombra
de suas ramas? Para quê a linfa fugitiva
se esforça em deslizar-se por sinuoso arroio?
Manda trazer aqui vinhos, perfumes e rosas
—essas flores tão efémeras—, enquanto
teus bens e tua idade e os negros halos
das três irmãs to permitam.
Te irás do souto que compraste, e da casa,
e da quinta que banha o vermelho Tiber;
te irás, e um herdeiro possuirá
as riquezas que amontoaste.
Quer sejas rico e descendente do venerável
Ínaco nada importa, ou quer vivas
à intempérie, pobre e de ínfima linhagem:
serás vítima de Orco imisericordioso.
Todos terminaremos no mesmo lugar.
A urna dá voltas para todos.
Mais tarde ou mais cedo há-de saír
a sorte que nos embarcará
rumo ao eterno exilio.
Horácio

A Dona Antonia escreve versos, aquilo parece a sirene dos bombeiros a correr para o fogo. Que aqueles babosos versos lhe adocem os beiços. Ela ha-de dar aquelas lamechices a uma casa de caridade. São fracos versos que a consolam naquele abandono de homem e filhos. A Dona Antonia gosta de costurar, é uma artista no ponto cruz, uma devota do ponto cruz e do Dr Sousa Martins padroeiro das diarreias e das cólicas. A Dona Antonia e os seus versos amarelos como a bilis. Ela entretem os seus bichos de estimação entre eles as pombas que poisam no peitoral a mendigar umas migalhas literárias. Dona Antonia e os seus versos fofos e quentinhos que cheiram a mofo e a naftalina.
Lobo Duarte
(Ao meu tio-avô João Nobre, o protagonista da história)
Ainda se ouve ao longe o trovão,
que fustigou a noite incessantemente;
o Sol, alegre e luminoso
na manhã, bela e amena,
o rosto vai descobrindo;
os pássaros, de ramo em ramo,
com a sua doce melodia,
o dia vão acordando;
já a suave e calma manhã,
abre as portas ao sol,
quando sai o pastor amoroso,
a ver o rio entrado nas margens,
o fresco solo verdejando,
da chuva copiosa do céu;
e atravessando o verde prado,
que as acrescentadas águas do Côa
serenamente descem,
alegre vai o pastor
noivar à sua aldeia
com Maria sua amada,
deixando o rebanho no bardo.
Não vai como costume a pé,
nem leva as tamancas
cravejadas de brochos,
nem a samarra grossa
de peles de lobo morto,
tintas em sangue de vaca;
mas sapatos de carneira,
meia branca lagarteada,
calça subida a meia canela,
botões de latão polido
no colete de risca,
que lhe fez Maria.
Vai cavaleiro brioso
na sua égua baia,
a sela leva de frisa,
e de banda, tapando a franja,
chapéu novo de festa,
capa de roda larga,
debruada a verde-escuro,
e guardada junto ao peito
de Maria a trança negra.
Chega o pastor à vila
pelo caminho dos vales
e a Maria espera-o ao portão;
traz cingida na cintura fina,
blusa de verde escarlate,
saia e saiote de pano;
a fita de cetim preto,
que o pastor amoroso lhe deu,
enfeita a corda dos cabelos.
Ao Largo das nogueiras,
pressentindo a morte
às primeiras casas,
assusta-se a égua baia,
derrubando o pastor amoroso,
que desacordado, levam
Para casa da sua Maria.
E jazendo enfermo assim,
ao vê-lo definhar, a infeliz,
lava-lhe o sangue do cabelo,
aplica-lhe panos de água morna,
anda em bicos de pés
para não perturbar o silêncio,
chora pelos cantos da casa,
limpando as lágrimas furtivas
ao panal de estopa grossa,
promete uma novena,
cem voltas à capelinha,
acende a luz do oratório,
reza ao Senhor dos Aflitos:
-Doce Jesus da minha vida,
esperai, não mo leveis ainda;
que não é bom que queirais
uma alma tão nova perdida.
E acrescentando azeite,
espevitando o pavio:
-Eu, meu Jesus, Vos rogo,
e volto a suplicar-Vos,
leva antes a minha vida;
que se Vós ma destes,
de boa mente ta devolvo,
porque a troco por amor.
E regressando à cabeceira,
aperta-lhe a mão gelada,
acaricia-lhe a testa em fogo,
que cobre de mil beijos.
-Não morras! – Lhe pede, chorosa.
-Ai, ai, Maria, Maria,
Que vejo a morte,
em seu véu branco,
rondando a cama!
-Lhe responde o pastor,
Sentindo o frio
subindo a espinha.
-Não digas tolices!...
Ainda haveremos de casar…
Ter um rancho de filhos!
– Recrimina-o ela, doce,
com um beijo nos lábios.
-Ai, ai, Maria, Maria,
-Lhe diz o pastor, alucinando-
A sua boca gelada
já beijou a minha!...
Canção, cala-te agora; não digas mais;
que os versos que escreverias,
falariam dos olhos tristes de Maria,
mais tristes que mortalha fria!

O meu corpo,
Que um dia abriu como uma rosa ao sol
E a cada Outono perdeu as folhas,
Amorosamente se deitou na areia.
E o pensamento, agitado pela brisa marinha
Soltou amarras, partiu no vento,
Para lá do pinhal, para lá das serras,
Para a sagrada terra dos carvalhos negrais,
Onde o rio, com as suas hortas,
Sob a velhinha ponte rumorosamente passa,
Sem cântico, nem espuma,
Em direcção ao mar.
E no fim da manhã amena,
Quando o sol bem alto sobre o Carril,
Levanta a geada das hortas,
E se respira aquele imenso verde,
Na colina do castelo,
O pensamento abrindo-se como o mar
A todos os fluxos do mundo,
Senta-se na vizinhança tutelar
Do grande cedro.
E o rio,
Com os seus verdes limos,
Rindo e cantando,
Saltando as fragas,
Devolve ao mar as folhas perdidas
Da minha infância!
Como todo o objecto ritual, a pia baptismal encerra um simolismo geral, concretizado e completado pelo sentido particular atribuído à sua forma.
A pedra em que é feita simboliza a perenidade, a àgua a regeneração. A pia sendo constituída por uma bacia de água redonda, oval ou octogonal, ou por uma concha, representa o oceano primordial, as àguas da Génese, em que o espírito de Deus pairava para obter a criação. È em função a essas àguas, que a pia baptismal possui o poder de operar a regeneração, uma recriação.
Oval, como o ovo cósmico, resumo da criação total que se repete analogicamente no nascimento e renascimento de cada indivíduo, imagem da renovação perpétua da vida; Octogonal, porque oito é um número sagrado co cristianismo (oito beatitudes que definem o reino dos céus, o número do oitavo céu – o empíreo-, a oitava cor –branco, a veste dos neófitos-, oito é numero de pontas da Stela Maris, sinal do espírito sobre as àguas), concha, porque lembra a matriz universal, que é o continente das àguas originais e dos germes dos seres; evoca o o abismo obscuro da energia criadora, emblema do segundo nascimento; oval, como uma pérola tida como produzida pelo relâmpago penetrando a ostra, fruto da união da àgua e Fogo, evocando a concha o baptismo na àgua e a pérola o baptismo no fogo, o nascimento de cristo na alma pelo baptismo do fogo.
O simbolo Solar de Cristo e o simbolismo aquático da pia de Baptismo estão relacionados:
S. Macário fala da Luz inefável que é o senhor como «pérola celeste» e do baptismo como «o mergulho que extrai a pedra do mar. Mergulhai (pelo baptismo) extraí da àgua a pureza que se encontra nela como a péroloa da qual saíu a coroa da Divindade». Dionísio, o Areopagita com o baptismo a «matriz da geração» e a fonte da vida que nos alimenta espiritualmente. Esta fons vitae, é a que brotava no meio do Éden, do templo de Jerusalém, nas visões de Ezequiel (13.1) e de Zacarias (13.1) e que foi vista surgir do corpo divino, no gólgota (São João, 19, 34), essa fonte de àgua e sangue – de fogo- que dá vida eterna e fonte espiritual para o mundo: «Quem tem sede, que venha a mim e beba, e do seu seio brotarão rios de àgua viva» (S. João, 7, 37-38).
O Baptismo é um rito de regeneração, de recriação espiritual, faz o neófito participar na morte e ressureição de Cristo e na Igreja Universal: «Sepultados com Cristo no baptismo, no baptismo ressuscitastes com Ele pela fé na potência de Deus que o ressuscitou dos mortos» (col.2.12).
O gesto central neste ritual é a emersão da água, que simboliza, como já referimos numa primeira parte deste estudo, a entrada no túmulo, a morte de homem velho; e emersão da àgua que simboliza a ressureição o nascimento do homem novo. O homem pecador é simbólicamente destruído restituído ao estado informe do caos e renasce um homem novo por acção da luz primoridial, correspondendo ao fiat lux da criação original, numa alusão ao Espírito de Deus cobrindo as àguas primordiais e ao dilúvio, imagem de regeneração.
Esta ligação da simbologia solar à aquática estava mais patente na cerimónia perliminar do ritual antigo do baptismo, que já despareceu no ociedente, quando o recipiendário abjurava satanás de mãos estendidas para ociedente, império das trevas, onde se punha o Sol, e consagrava-se de mãos esendidas para oriente, ponto onde renasce Cristo, o Sol.
O banho baptismal é simultaneamente um banho aquático e solar, em que o neófito é baptizado na água e no fogo, sai da água «filho da luz»(epif.5,8), como quando o sol renasce sobre as àguas do mar e que São Gregório Nazanieno referia ao dizer que as àguas iluminadas pelo Sol renascente regeneram os novos baptizados que «foram encontrados pelo raio do Sol da ùnica Divindade».
Esta simbologia solar e aquática do baptismo como nascimento espiritual, traduzia-se também nos ritos orientais da epifania cristã, perdidos na liturgia ocidental, que também era uma festividade do fogo e das águas, em que se realizava uma procissão com archotes, a benção das àguas e das fontes, banho comum dos crentes nos rios e fontes santificados, infusão na àgua de um carvão incandescente, incensamento da água, crisma sagrado, colocação na água de uma cabaça com cinco velas acesas, e regresso à igreja onde se benzia a àgua baptismal.
A própria benção das águas no rito maronita interpreta o baptismo de Jesus no Jordão também como simbologia solar e aquatica:
«Naquela noite, o rio Jordão tornou-se ardente de calor, quando desceu a chama (Jesus) para se lavar nas suas ondas. Naquela noite, o rio pôs-se a fervilhar e as suas àguas entrechocaram-se, para serem abençoadas pelos passos do Altíssimo, que vinha ao Baptismo...».
Esta associação da água e do fogo, assemelha-se à doutrina romana do Sol Invictus, e convém lembrar, já vem do oriente não-cristão, em que o solestício de inverno, em que se inicia o renascimento da natureza, era festejado com celebrações epeciais. No Egipto celebravam-se as festividade de Osiris, em que se chorava a morte de Osiris-Sol morrendo no solstício e depois renascia como Harpócrates, Sol-Nascente. Por essa ocasião havia uma procissão com archotes e a àgua do Nilo transformava-se em vinho e que também é a origem da «festividade da imersão» dos coptas actuais.
Esta religião solar dos antigos, ensinava que o fogo, princípio derivado do Sol, para produzir renovação, a vegetação e a vida universal, se unia à Terra, mas também em primeiro lugar à Agua. Nessa fase, o deus solar deve entrar em luta contra o poder das trevas, o qual assume a forma de um dragão que se oculta nas águas; O banho do deus solar destrói o dragão, princípio da morte, e unindo-se às àguas, fecunda-as e permite assim a renovação. Esquema este que já se encontrava na Babilónia , onde Marduque, montado no carro solar, derrota Tiamate, e na India, onde Indra derruba a serpente Vruta que conserva as àguas prisioneiras, e na Grécia, onde Apolo vence a grande serpente Pitan, e que, por intermédio hebraico da luta do Senhor Deus contra o monstro Rahab, chega ao cristianismo:
«Naquele momento, com a sua pesada e forte espada, o senhor vingar-se-á da idra, sepente fugidía da idra, serpente Sinuosa, e matará o dragão que está no mar» (Isaías 27, 1).
A benção das àguas no rito arménio também faz alusão a esta luta:
«chegado à margem do Jordão, Teu filho viu o Dragão oculto na água, abrindo as goelas impaciente, para tragar o género humano. Mas o teu filho único, pelo seu grande poder, pisou as àguas sob os seus pés e castigou duramente a fera vigorosa em conformidade com a predição do profeta: Esmagaste sob as águas a cabeça do dragão»
Existe portanto um paralelismo entre a renovação cósmica da natureza pelo Sol visível, que fecunda as àguas e a renovação do homem pela encarnação do verbo, Sol intelegível, que nos deu o baptismo, sinal de regeneração.
A teologia da salvação insere-se pois num simbolismo que recorda a regeneração periódica do tempo e do mundo pela repetição dos arquétipos: «cada novo ano retoma o tempo no seu início, repete a cosmogonia» (M. Elíade), assim como o baptismo repete o baptismo de Cristo no Jordão e o ensinamento do primeiro capítulo do Génese de que Spiritus dei ferebetur super aquas.
Como as àguas têm o poder de regenerar a vida porque nelas se banhou o deus solar, também as águas do baptismo têm o poder de regenerar os homens, porque foram tornadas fecundas pela união misteriosa entre Cristo e a sua Igreja, aquele como esposo, esta como noiva:
«Hoje a Igreja uniu-se ao seu Esposo celeste, porque no Jordão, Cristo a purificou das suas faltas» (antifona de Benedictus)
O elemento aquático está ligado ao feminino, tal como vimos, o solar ao masculino. A àgua é a Mãe-Terra geradora (mulher divina) ou a Serpente das àguas.
A relação que se estabelece entre estes dois elementos -Masculino/Sol e Mãe/Àgua-, de fundo cosmológico, tem correspondência nos simbolos, onde vamos buscar os princípios necessários para os compreender, porque fazem parte do pathos, que o cristianismo recolheu da herança tradicional e do judaísmo primitivo.
Primeiro, porque o cristianismo não é o judaísmo tradicional, mas sim o profetismo e correntes semelhantes, em que predominam noções de pecado e de expiação, que se exprime na espiritualidade saturada de pathos, em que o Deus Senhor dos exércitos do judaísmo, se transforma no Messias do cristianismo como filho do homem que vai servir de vítima expiatória, persseguido, esperança e salvação dos pecadores. Foi esta concepção de Cristo como rompendo com a lei e ortodoxia judaica, que levou o cristianismo a retomar no estado puro muitos dos temas típicos da alma semita, que depois com o paulismo form universalizados, independentemente das suas origens.
Porque o cristianismo primitivo era puramente espiritual e místico, não possuía simbolos cosmológicos. Na sua expansão encontrou as tradições das religiões antigas que utilizavam essa linguagem cósmica e, em grande parte, solar, e aceitou-as de forma a mais facilmente se universalizar.
Assim, doutrinalmente o cristianismo apresentou-se como uma forma de Dionismo, porque se formou essencialmente com vista a adaptar-se a um tipo humano de alma agitada, dilacerado, centrado na parte irracional do ser, pondo o ênfase na fé da salvação, retomando o tema plásgico-dionisiano dos deuses sacrificados que morrem e renascem à sombra das Grandes Mães.
Não é por acaso que a salvação no cristianismo se inicia por meio de uma mulher anunciada desde as origens e natural seja que o simbolo que a própria Igreja adoptou, fosse o da Mãe (Madre Igreja).
O orfismo favoreceu também a a aceitação do cristianismo no mundo antigo, como profanação da doutrina iniciática dos Mistérios e de outros cultos da decadência mediterrânica, em que existiam mitos de «salvação».
E destes mistérios, espécie de revelação primitiva, de simbolismo tradicional, o princípio sobrenatural foi concebido como «macho» e «fêmea», natureza e devir. No helenismo é masculino o «um» , o «que é em si mesmo», completo e suficiente; é feminina a díada, princípio diferente, o «outro» e portanto o desejo de movimento. No Induísmo, é masculino o espírito impassível – purusha- e feminina a prakti, matriz activa de toda a forma condicionada. Na tradição extremo-oriental este dualismo exprime-se por conceitos equivalentes,em que Yang–o princípio masculino- se encontra associado á virtude do céu e o yin, princípio feminino, à terra.
É possível a partir daqui estabelecer, por analogia, uma relação inesgotável de oposições:
Sol/Dia/Luz/Céu/Fecundação/Engendrar/Mas
Àgua/Noite/Trevas/Terra/Gestação/concebe
Estes princípios, sendo opostos, superam-se, quando o princípio feminino, cuja natureza consiste em estar em relação com o outro, se orienta para a firmeza masculina. Esta sintese atinge-se quando o elemento feminino se «converte» ao masculino, que o leva a existir para o princípio oposto. Então, em termos metafísicos, a mulher torna-se «esposa», potência «geradora», que recebe do macho imóvel o primeiro princípio do movimento e forma, conforme também se encontra, de certa forma, no aristotelismo e no neoplatonismo.
E como o cristianismo teve, em particular, de assumir desde inicio a herança das confrarias artesanais, sobertudo dos contrutores, que utilizavam também nos seus trabalhos um simbolismo cosmológico, ligado às antigas religiões, não surpreende encontrarmos temas desse simbolismo também misturados na arte sagrada.
É por isso que esta simbologia ficou gravada também nos restantes simbolos da pia baptismal de Vilar Maior. O elemento Solar já o expliquei numa primeira parte deste ensaio, nos círculos concêntricos da base. O elemento Feminino e a água está nas figuras femininas estilizadas junto ao rebordo, e na corda /serpente que divide aquelas dos círculos.
Estes elementos femininos representam a Mãe Virginal de todas as coisas que carrega o ceptro da fecundidade universal e relaciona-se à Vénus–Urânica e à Ishtar babilónica, considerada como a geradora das formas ideais ou os arquétipos a partir dos quais tudo se cria. O seu domínio é o oceano luminoso no qual se reflece o pensamento do criador, cujas ondas correspondem às Àguas do Génese, separadas pelo firmamento das àguas inferiores.
A própria cruz que também se encontra na pia baptismal é um simbolo desta união geradora. O traço horizontal – (sinal de subtração aritemética) é passivo, como a mulher que dorme e descansa no solo, o sentido da amplitude da extensão do mistério ao nível do nosso mundo. O traço vertical I é activo, como o homem de pé, desperto, consciente, o sentido da exaltação, da ascenção aos estadios superiores do Ser, ao céu. A actividade que atravessa a passividade, sugere uma ideia de fecundação, e filosoficamente a cruz diz respeito à união sexual de Deus unindo-se à natureza para engendrar o que é.
Como disse Monsenhor Landriot: «O simbolismo é uma ciência admirável que lança uma luz maravilhosa sobre os conhecimentos de Deus e do mundo criado, sobre as relações do criador com a sua obra, ... a chave da alta teologia, da mística, da filosofia, da poesia e da estética e ciência das harmonias entre as diferentes partes do universo e que constituem um todo maravilhoso de que cada fragmento pressupõe o outro e reciprocamente, um centro de claridade, um foco de doutrina luminosa.»
De facto, os simbolos teológicos, apenas são compreensíveis, na maioria dos casos em referência a símbolos cosmológicos que lhes estão subjacentes e servem de suporte. E a arte, pela figuração, como a da pia baptismal de Vilar Maior, ajuda a explicar estes simbolos cosmológicos.
Era o mesmo quarto no primeiro andar,
De há cinco anos atrás.
(como ela recordou)
Entrou, e beijando-a, foi-a despindo;
Os dois ardendo de desejo e saudade.
(ela reclamando que se despisse também)
Havia uma cadeira aos pés da cama
Onde eles dobraram a roupa.
(ela puxou o cobertor da cama)
Um beijo longo, e os corpos deitaram-se
Como se um ao outro eternamente pertencessem,
Apagando o tempo com um nó mais forte que eles,
Olhos nos olhos,
Mãos nas mãos,
Pele na pele,
A mesma respiração,
Naquela lenta luz
Que entrava pela janela
Entreaberta.
Agonizando no doloroso verde da serrania,
Afoga o vento o peito lacerado na ramagem.
E o carrascal escuro se põe em movimento
Coalhado de tristeza e agonia,
Confundido com os toiros na pastagem.
À noite, à noite de bréu, fria, ao vento
O carrascal redondo e sonolento estremece;
E levantando os cornos, pondo-se em movimento,
A sombra das almas, erguendo-se, cresce.
Ouve, meu amigo, o vento da serrania!
Oh que noite tão triste e fria,
Que o restolho faz chorar…
Noite de uma só lua;
Noite sombria e nua,
De mil almas a pastar.
Robalos,enguias,trutas,
Peixes que a barbas enxutas
Não pesca o proprio Nereu
Fizeram ninho nas grutas
Leito de rochas hirsutas
Do Cesarão Cesareu
Perto de Aldeia da Ponte.
Vai-se a serra,vai-se o monte,
Ficam as veigas humosas
Mas os peixes,quem os conta
Á luz do sol que desponta
Pescarias milagrosas
Cesarão ,sigla romana
De que a Ribeira se ufana
Que César foi quem lha deu
Mas deu-lhe o povo outro nome
Que o tempo jamais consome
É Cesarao Cesareu
(Manuel Leal Freire)
Raia Morena
Raia, terra da memória distante,
Meu cantar torna-se triste
Quando penso em ti.
Meu cantar de saudade,
Meu cantar, maia em flor,
Que te venho dar.
Raia, terra dos primeiros jogos da infância,
Do perfume dos carvalhos e dos castanheiros,
Das mansas águas da Côa,
Da aridez dos cabeços,
Das sombras frescas dos freixos,
Dos quintais, dos chãos e dos vergéis com os seus mimos,
Dos beirais amigos
Onde a minha alma cansada,
Ao florir da giesta,
Atravessando montes e rios,
Todos os anos
Regressa.
Raia, mulher morena
De olhos ciganos,
Rebelde contrabandista,
Coberta de maias,
Beijo a tua boca em fogo,
Que me fala de amores
Na penubra doce da tarde,
Quando ébria de luz e melancolia,
Atravessa a minha alma
Montes e rios,
Para voltar a ti.
Raia, mulher amada,
Não tenho outra coisa que te dar
Senão um ramo de maias
De intensa fragrância,
Colhidas no teu corpo em flor.
Raia, mulher rebelde,
Meu cantar é um ramo de maias
De intensa fragância,
Quando penso em ti.
Antioquía, que chegou a ser a capital do cristianismo no Oriente, tinha, nos seus arredores, um célebre templo dedicado a Apolo, onde se proferiam oráculos.
No tempo de Constantino (séc. IV) o cristianismo passou a relegião dominante, devido às perrogativas concedidas pelo imperador, começou a ocupar e consagar à nova fé vários templos pagãos, remetendo a religião antiga para os campos (pagus).
Foi o que sucedeu com o templo de Apolo, em Antioquía, em cujo àtrio foi construída uma Igreja com a campa de Babylas, bispo mártir de Antioquía.
O imperiador Juliano (331-363), que fora educado a paixão dos clássicos e deuses helénicos pelo seu pedagogo e tutor Mardónio, e instruído seretamente nas teurgias do paganismo místico, pelo neoplatónico Máximo de Éfeso, sucedendo no trono imperial ao seu tio Constantino, apostatou, estabelecendo o paganismo com um sistema eclesiástico, que imatava o da igreja cristã, e perseguiu o cristianismo.
Chegando em 362 aAntioquía, em passagem para a campanha militar do Médio Oriente, Juiano quis consultar o oráculo de Apolo, o que os sacerdotes recusaram, devido à profanação do átrio do templo.
Juliano mandou então derrubar a Igreja e transportar os restos de Babylas para lugar original, bem como limpar e purificar o precinto.
No fim deste mesmo ano, um grande incêndio, atribuído a vingança dos cristãos, destruíu parte do templo e a famosa estátua de Apolo, obra do escultor ateniense Bryaxis.
O poema de Konstandinos Kavafis, que se segue, glosa estes factos históricos e o triunfo, muitas vezes, pelo ferro e fogo, do cristiaismo emergente, que de religião perseguida se tornou, na viragem do séc. III para o IV, em religião persecutora:
Ficámos atónitos em Antioquia quando soubemos
Dos novos sucessos de juliano.
Apolo ele próprio exoplicou-se, em Dafne!
Oráculo não queria dar (estamos nas tintas!).
Não tencionava falar mnticamente, se primeiro
Não limpassem em Dafne seu recinto sagrado.
Incomodavam-no, declarou, os mortos vacinais.
Em Dafne havia muitas campas.-
Um dos ali enterrados
Era o prodigioso, da nossa igreja glória,
O santo, o triunfadosr mártir Babylas.
A este aludia, a este temia o falso deus.
Anquanto o sentia perto, não tinha lata
Para dizer os seus oráculos; nem pio.
((Aterram os nossos mártires aos falsos deuses.)
Arregaçou as mangas o irreverente Juliano,
Ficou nervoso e esganiçava-se: «levantem-no, levem-no
Tirem-no imediatamente a este Babylas.
Como ´de possível? Apolo incomoda-se.
Levem-no, peguem nele já.
Desenterrem-no, levem-no para onde quiserem.
Tirem-no, deitem-no fora. Andamos a brincar?
Apolo disse que se limpe o recinto sagrado.
Tomámo-la, trouxemo-la a santa relíquia para outro lugar;
Tomámo-la, troxemo-la em amor e honra.
E deveras bem prosperou o precinto sagrado.
Foi sem tardança, quando grande
Incêndio se propagou; um terrível incêndio:
E queimou-se o precinto sagrado e Apolo também.
Em cinzas o ídolo; para varrer, com o lixo.
Explodiu Juliano e fez correr o boato-
Que outra coiusa havia de fazer – que o incêndio fora posto
Por nós cristãos. Deixem lá que diga.
Não houve provas; deixem lá que diga.
O fundamental é que explodiu.
Konstandinos Kavafis
Negro
Mais negro que os fogueiros ào inferno;
Gordo,
Mais gordo que as mulheres de um rei negróide;
Bufão,
Mais bufão do que Noto, Eolo e Bóreas à compita;
Veloz,
Mais veloz que os golfinhos de Nereu –
Entrou na praça o boi galhardo.
Escarvando,
Olfacteou o argiloso chão,
Com um ar de Satã alucinado.
Depois,
Erguendo a cabeça,
Achou pequenas a pequenez da praça
E a amplidão dos céus.
Depois, ainda,
Mugiu
Em ódio clamoroso e clangoroso.
Então,
A praça entrou nos delírios do pavor.
O forcão
Quedou-se desamparado
No meio do terreiro
E os capinhas galgaram em pamco
O espaço que os separava das trincheiras.
Sozinho,
No meio da praça,
O boi,
Já gigante,
Mais se agigantava.
Empoleirado num carro,
Exalçado a lenha
E enfeitado a colchas,
O tamborileiro rufava,
Querendo rebentar o velho bode.
Então os solteiros ganharam coragem
E, saltando aos magotes para a arena,
Imobilizaram o boi
Entre os aplausos dos homens
E os gritos das mulheres.
Manuel Leal Freire

Ricardo Paula, Pintura "o abraço do mar III"
Como se o mar me prendesse os braços
e eu ficasse no chão sem vontade
de fazer e de construir
como se os lábios
ficassem presos
e fosse impossivel sorrir.
Sorrir aos amigos
e escutar as conversas
as histórias da força
dessa luta de quem recomeça a viver
Como se o mar me prendesse os braços
e fosse como a corrente que prende os barcos
e eu ficasse no chão sem vontade.
Como se a liberdade
fosse aquele acto
que cai e se levanta
como se faz no teatro.
Lobo Duarte