Quarta-feira, 11.11.09

 

 

Pela estrada desce a noite 
Mãe-Negra, desce com ela...

Nem buganvílias vermelhas, 
nem vestidinhos de folhos, 
nem brincadeiras de guisos, 
nas suas mãos apertadas. 
Só duas lágrimas grossas, 
em duas faces cansadas.

Mãe-Negra tem voz de vento, 
voz de silêncio batendo 
nas folhas do cajueiro...

Tem voz de noite, descendo, 
de mansinho, pela estrada...

Que é feito desses meninos 
que gostava de embalar?...

Que é feito desses meninos  
que ela ajudou a criar?... 
Quem ouve agora as histórias 
que costumava contar?...

Mãe-Negra não sabe nada...

Mas ai de quem sabe tudo, 
como eu sei tudo 
Mãe-Negra!...

Os teus meninos cresceram, 
e esqueceram as histórias 
que costumavas contar...

Muitos partiram p'ra longe, 
quem sabe se hão-de voltar!...

Só tu ficaste esperando, 
mãos cruzadas no regaço, 
bem quieta bem calada.

É a tua a voz deste vento, 
desta saudade descendo, 
de mansinho pela estrada... 

Alda Lara (Angola 1931-1962)

Obs: Este poema foi escrito aos 21 anos, quando Alda cursava medicina em Portugal. Mãe - Negra é Africa; e o pema retrata a saudade da terra natal.

 



Manuel Maria às 02:30 | link do post | comentar

Terça-feira, 10.11.09

 

 Foto de Lobo Duarte

 

Hoje o post é sobre o José Lobo Duarte, um amigo pintor e poeta de Coimbra, ainda pouco conhecido, e do qual tive a honra de apresentar o primeiro livro na RTP2. É possivelmente um dos maiores poetas surrealistas portugueses, a par de Cesaryny, e vai editar novo livro, longe das parangonas dos media, a que é avesso. Aqui ficam dois textos (revistos por mim) do poeta; deliciem-se, porque a posteridade vai falar dele:

 

I - Tenho um pensamento.

Tenho um pensamento; e não tenho coisa alguma, que não seja ouvir, esquecer; e ainda essa tua musica! Eu sei lá onde começa a eternidade! São as palavras que limitam; não os teus braços… O teu corpo…

  O grito caiu-te nas mãos? Também nas minhas, como gotas de água. Tenho um pensamento; mas és tu que me guias, que tens os olhos tristes e os lábios doces; e é daí a poesia pura, mas basta a natureza e o instinto dos homens para, que isto e o mais, se acrescente á definição de poesia.

 Tenho um pensamento; e é assim uma despedida; mas a musica não deixa que vá; e mais forte ainda é a esperança dos homens. Se eu partir, como poderei ver a esperança dos homens, assim sentida, na perspectiva física, na dúvida que há com a morte e com a fé?

Tenho um pensamento e não tenho, porque sou um pássaro que voa; um momento que escapa. Morremos quando todos os momentos voam do nosso corpo para a paixão e regressam ao momento original, em que não será falsa a pronúncia do amor.

Tenho um pensamento e não tenho; este absurdo, mata-me! Falam-me da guerra e do rapaz nu com uma flor, que afinal não era.

 

A menina do terceiro andar, que anda na catequese, disse que era um pénis…

 

Era o milagre do pénis!

 

Que trazes nesse regaço?

 

São flores senhor…

 

Flores!?  Mas que espanto esse,

que vejo no teu corpo!

 

A menina do terceiro, era afinal, e este era o assunto, um menino com pénis, localizado naquele ponto.

 

Tenho um pensamento e não tenho; e isso me diverte e repugna.

 

São pénis, senhor…

 

E toda esta afirmação, com reticencias para o milagre da vida, que é esta saliência. Nasceu disto esta nação; e afinal é o cu, a aparência da portuguesa condição.

 

Tenho um pensamento, uma folha de trinta e cinco linhas e uma corda...

 

Amanhã a vida anda á roda!

 

 

 

II- A água que posso imaginar, na ideia do desejo que tenho de ti.

  

Atravesso o rio, as paredes de água e a sede do teu corpo, a tua cidade onde da janela me chamas; e o meu pensamento anda sempre em viagem; e os pássaros levam em viagem, a minha vontade de ir a outros lugares.

Estou mais a teu lado, quando me afasto da tua presença e trago de volta o paraíso ao teu corpo. Atravesso a água e bebo toda a água que posso imaginar, na ideia do desejo, que tenho de ti.

O meu pensamento anda sempre em viagem. Canto as canções que não me pertencem; e tu entras nessas canções e nas paisagens, que ficam dentro de mim, quando fecho os olhos e as faço desaparecer.

 A tua cidade chama-me; e também tu, quando o fazes e me continuas a iluminar!

 

                                                         José Lobo Duarte

 



Manuel Maria às 16:08 | link do post | comentar

Quinta-feira, 05.11.09

 

castelo.jpg

 

 

Relatório que fez Misael, anjo enviado à Terra, no ano 2009 da era de Jesus de Nazaré:

A Terra era uniforme e vazia e as trevas cobriam o abismo. Deus decidiu fazer o céu, a terra e a luz.

            Traçou um esboço a guache creme. Primeiramente pintou uma aguada em toda a área, deixando as zonas claras com a cor do vazio. A cor foi obtida misturando branco opaco, negro-de-fumo, anil e um toque de carmesim. Pintou tons mais escuros da mesma mistura sobre a aguada inicial, ainda húmida. As áreas suaves do céu, mais claras, obteve-as passando uma esponja. As colinas, os fundos e alguns recortes do céu foram acrescentados depois de o resto ficar seco.

            O efeito dos raios solares e o efeito do nevoeiro obteve-os com aguadas transparentes de branco opaco e um pouco de ocre amarelo.

            Afastando-se do cavalete, Deus viu que tudo isto era belo. Então pintou todos os animais que existem nos oceanos, na terra e no céu; abençoou-os e ordenou que se multiplicassem.

            E apreciando a magnífica obra que saíra do seu pincel, ficou satisfeito. Disse então: «façamos o homem à nossa imagem e semelhança, para que domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos e sobre todos os répteis que rastejam sobre a terra».

Depois, entre os Querubins do sétimo céu que presidem às galáxias do universo, pôs Uriel num lugar proeminente, encarregando-o do departamento da via láctea, sistema solar,  coadjuvado por vários arcanjos e anjos numa cadeia hierárquica de importância em função dos continentes, terra, mar e céu, por que respondiam.

E nesta hierarquia celeste, atribuiu Deus ao arcanjo Rafael a Terra, a Gabriel a porção da Terra que viria a ser Portugal e a mim, Misael, uma língua de terra da Malcata à Marofa.

Certa manhã, enfadado da rotina da corte celestial, desceu Uriel até mim e acordou-me:

- Misael, a estupidez e as discórdias dos teus protegidos irritaram o Senhor; de forma que se reuniram em concílio os querubins para decidirem se deviam castiga-los ou destruí-los. Vai a essa terra, examina tudo e conta-me o que vires, para que decida conforme o que me relatares.

- Mas, chefe – observei, ainda ensonado- não conheço ninguém naquele fim do mundo…

- Melhor ainda – retorquiu Uriel - assim serás imparcial.

Disfarçando-me de viajante, montei uma nuvem, e parti. Ao cabo de alguns dias, encontrei finalmente nas margens de um rio um grupo de operários que aparelhavam umas pedras; e junto a eles um grupo de três homens que orientavam os trabalhos.

 Dirigi-me primeiro a um dos operários que encontrei. Falei-lhe, e perguntei que obra era aquela em que trabalhavam.

- Não sabemos - replicou o operário;  e apontando para o grupo dos três homens - mas se queres saber, pergunta ali aos capatazes.

Acerquei-me então dos capatazes e perguntei-lhes que obra era aquela que faziam.

-É uma ponte – respondeu o primeiro - .

-Qual ponte, qual carapuça – respondeu o segundo- aqui vai ser um açude.

-Nada disso – respondeu o terceiro – um moinho é que faz aqui falta.

Espantado, misturei-me então com os operários, e conquistando-lhes a simpatia, pude assim saber que, por causa daquela discórdia que durava há anos, se acumulavam toneladas de pedra na margem com grande dispêndio de recursos e trabalho, sem que se visse algum resultado daquilo.

Naquela terra, alias, - explicaram os operários – todos sofriam do mal de inveja, não se entendendo para coisa nenhuma. Por isso nada se fazia de útil para o bem comum, com grave prejuízo de todos.

            Despedi-me dos operários e desci o rio, numa extensão de uma légua, atravessando tapadas, terras férteis cobertas de mato e giestas, alcançando um alto aberto com uma vista panorâmica, sobre uma paisagem deserta e calcinada: Numa ligeira elevação, a torre de menagem de um castelo, erguendo-se sobre os telhados vermelhos do casario, cuja ruína ofendia a vista.

Chegando à cidade, depois de outro quarto de légua a pé, atravessei as ruas completamente desertas e fui dar a uma praça onde, sentada na escadaria do chafariz, a meio do recinto, vi uma velha que gozava o sol da tarde.

Abeirando-me, perguntei-lhe:

-Boa velha, que é feito dos habitantes desta terra?

- Saiba o senhor – retorquiu a velha, levantando os olhos da renda em que trabalhava – que os novos partiram e os velhos foram morrendo.

O sol começava a descer no horizonte. Seguindo caminho, pela rua principal, que tinha um aspecto abandonado e desagradável, entrei num terreiro onde brincava uma criança. Aproximando-me:

- Qual o teu nome?

-João…

-E fazendo-lhe uma festa – brincas a quê?

-Ao faz de conta…

- E não avistando mais ninguém – Com quem?

-Com os meus amigos…

- Mas que amigos?

-Amigos de faz de conta…

Afeiçoando-me à criança, a única que vi no meu passeio, temi que aquela terra fosse condenada. Sentando-me num banco de pedra que ali havia, pus-me a cismar sobre o relatório que havia de apresentar a Uriel.

Eis como me desenvencilhei para apresentar esse relatório. Chamei a criança e levei-a a Uriel.

- Destruirias – disse – aquela terra, apesar deste único inocente?

Uriel compadeceu-se, deixando tudo como estava. E apanhando uma corrente ascendente, juntando-se aos outros querubins, desapareceu no espaço sideral.

            É que para inferno –sentenciou Uriel- já têm que chegue!

 



Manuel Maria às 09:07 | link do post | comentar

Quarta-feira, 28.10.09

 

Conversão de S. Paulo a Caminho de Damasco (exposição do Seminário de Almada)

 

            «Deus não existe». E não existe porque nunca se deu ao trabalho em descer à dimensão espacio-temporal para falar com o grande génio da humanidade que é Saramago.

            É este o argumento idiota de um sofrível escritor que pensa ser o Nobel um certificado de autoridade intelectual e inteligência “erga omnes”.  

            A existência de Deus, até nem é uma questão de fé mas de lógica. Mas inteligência e rectidão intelectual, pelos vistos são talentos que Deus não distribuiu a Saramago. Por isso, releva-se-lhe a falta, porque não se lhe pode exigir o que manifestamente não tem.

            Não se lhe exigindo inteligência e rectidão intelectual, muito menos se lhe pede a clarividência mística do porteiro da Cartuxa de Évora, que ao argumento do nascimento do mundo pela explosão do Big Bang a partir do nada, contrapunha:

            -Pois… Mas se nasceu do nada, quem continha esse nada?

            As provas de São Tomás a respeito de Deus, são tão brilhantes, que conseguem convencer quem tenha o mínimo de inteligência e de rectidão intelectual. Muito antes dele, homens de uma grande rectidão intelectual, como Sócrates, Platão, Aristóteles, Séneca, Virgílio e Marco Aurélio chegaram à conclusão da existência de Deus.

Sócrates, às portas da morte rezava: «Causa das causas, tem piedade de mim…»

Cleanthes, discípulo do estóico Zenão, cantava o seguinte hino: « Altíssima Glória dos Céus, Senhor de variado nome eterno, perpétuo seja o teu poder! Abençoado sejas, ó grande arquitecto da criação, que ordenas todas as coisas segundo as tuas leis! Evocar o teu nome é próprio e justo para o mortal, pois somos nascidos de ti…»

Séneca descrevia o Supremo Poder como «Deus Todo Poderoso», ou «Sabedoria incorpórea, ou Espírito Santo, ou ainda Destino», numa antecipação da doutrina cristã da Santíssima Trindade, de que a Igreja suprimiu o destino.

            A existência de Deus é uma verdade evidente em si mesma, porque na preposição “Deus existe”, o predicado identifica-se com o sujeito, porque Deus é o próprio ente.

            Mas em relação a nós, que desconhecemos a natureza divina, ela não é evidente, precisando de ser demonstrada. Mas o que se demonstra, não é evidente e o que é evidente não precisa de ser demonstrado.

            O que tornaria à partida paradoxal a demonstração da existência de Deus. Por isso São Tomás diz que a existência de Deus é antes de mais, um artigo de fé e como tal não precisa de ser demonstrado.

            Mas mesmo assim, podemos chegar a Deus pela via da demonstração, das quais São Tomás distingue dois tipos:

a)    Demonstrandum propter quid (devido a quê) que se baseia na causa e parte do anterior (causa) para o posterior (efeito)

b)    Demonstrandum quia (porque) que arte do efeito para conhecer a causa.

Quando vemos um efeito pela sua causa, por aquele acabamos por chegar a esta, pois o efeito depende da causa e de algum modo, tem qualidades da causa.

            Assim, embora Deus não seja evidente para nós, é demonstrável pelos efeitos que dele conhecemos. Como dizia S. Paulo «A existência de Deus […] pode ser conhecida pela razão (Rom. I, 19).

            A fé assenta e pressupõe um conhecimento natural e racional, assim como a verdade pressupõe a mentira e a perfeição a imperfeição. Só quem conhece ou entende a demonstração filosófica da existência de Deus, aceita a sua existência com uma fé esclarecida.

            Ora, não primando Saramago pela inteligência e honestidade intelectual, admiração seria que admitisse a existência de Deus sequer pela via da fé.

            Querem ver como pela via da razão São Tomás (1.ª parte da Suma Teológica art. 3.º da questão 2) demonstra a existência de Deus?

Basta a prova do movimento no universo:

As coisas mudam; é um facto. Uma pessoa nasce, cresce e morre; as estações do ano sucedem-se; um regato corre e seca, etc.

Na mudança das coisas podemos distinguir as qualidades já existentes e as qualidades que podem vir a adquirir pela mudança. Aquelas são as existentes em acto; estas são as existentes em potência.

Vg. Uma parede branca tem a brancura em acto e o vermelho em potência porque pode ser pintada desta cor.

A mudança, ou movimento é a passagem de potência (x) a acto (x) traduzida na seguinte fórmula:

M = PX---»AX

Vg. Pintar de vermelho a parede branca.

Ora nada passa de potência a acto sem uma entidade estranha que tenha aquela qualidade em acto.

Vg. A parede branca só fica vermelha se receber o vermelho da tinta.

Concluindo; tudo o que estava em potência e muda é movido por outrem. E para mover é preciso ter uma qualidade em acto. No que decorre que é impossível que uma coisa esteja ao mesmo tempo em potência e acto para uma mesma qualidade.

V.g. Se a parede está branca em acto, ela tem potência para ser vermelha. Se ela está vermelha em acto ele não tem potência para ser vermelha.

É por isso impossível que uma coisa seja ao mesmo motor e móvel para uma mesma qualidade; isto é, que uma coisa se mude a si mesma. Resumindo: tudo o que muda, é por acção externa.

E as mudanças podem dar-se numa sequência definida de mudanças que pode exemplificar-se na seguinte fórmula invertida:                                                                         

PX(6)---»AXPX(5)---»AXPX(4)---»AXPX(3)---»AXPX(2)---»AX(1)

Definida, porque se fosse indefinida, não havia um primeiro ente que originasse a sequência, o que seria absurdo porque para se produzir movimento num ente é preciso sempre outro com a qualidade em acto e porque tinha que a potência preceder o acto e nunca podia haver uma acto anterior à potência, impossibilitando-se assim o movimento.

Portanto a sequência do movimento não pode ser indefinida, e aquela tem de ser originária de um ente que seja apenas em acto, que seja o primeiro motor.

Este primeiro motor não pode ser movido, porque é puro acto (tem todas as perfeições) sem potência passiva, porque se a tivesse seria movido por um anterior, como é lógico.

Este Acto Puro, sem nenhuma potência passiva é Deus. 

E como Acto Puro, não tem passado nem futuro; é, simplesmente. Por isso quando Moisés perguntou a Deus qual era o seu nome este respondeu-lhe: «Eu sou Aquele Que é», e quando Jesus discutiu com os fariseus lhes disse também: «Antes que Abraão fosse, Eu sou» (Jo. VIII, 58)

 Caramba! Nem é preciso ser mais inteligente que Saramago… Os movimentos dão-se no espaço e tempo que são mensuráveis e como tal a sua sequência tem que ser finita, o que é comprovado pela teoria do Big Bang, pela lei da entropia e até pela teoria da evolução.

Deus portanto existe. É o ser em Acto Puro que não muda, independentemente da vontade de Saramago.

 Até o porteiro da Cartuxa de Évora, que foi das pessoas mais simples que alguma vez conheci, no seu misticismo chegou à conclusão de que Deus é «Aquele que tudo contém…»

Mesmo a parvoíce de Saramago!

 



Manuel Maria às 16:33 | link do post | comentar

Terça-feira, 20.10.09

 

 

"Há muito tempo que não escrevo. Têm passado meses sem que viva, e vou durando, entre o escritório e a fisiologia, numa estagnação íntima de pensar e de sentir. Isto, infelizmente, não repousa: no apodrecimento há fermentação." FP

 



Manuel Maria às 13:42 | link do post | comentar

Segunda-feira, 07.09.09

 

 

Estas férias li um magnífico poeta que entoa como ninguém a simplicidade da vida humana, resumindo-a ao amor. Celebra o amor à maneira das Vestais da Grécia antiga, onde o vinho adquire a função sagrada de induzir o êxtase dos sentidos. Aqui fica um dos seus poemas, na grafia do século XIX:

 

 

Andáva a lua nos céus

Com o seu bando de estrellas.

 

Na minha alcova,

Ardiam vellas,

Em candelabros de bronze.

 

Pelo chão, em desalinho,

Os velludos pareciam

Ondas de sangue e ondas de vinho.

 

Elle olhava-me scismado;

E eu,

Placidamente, fumava,

Vendo a lua branca e núa

Que pelos céus caminhava.

 

Aproximou-se; e em delirio

Procurou ávidamente,

E ávidamente beijou

A minha boca de cravo

Que a beijar se recusou.

 

Arrastou-me para Elle,

E, encostado ao meu hombro,

Fallou-me d'um pagem loiro

Que morrêra de Saudade,

Á beira-mar, a cantar...

 

Olhei o céu!

Agora, a lua, fugia,

Entre nuvens que tornavam

A linda noite sombría.

 

Déram-se as bocas n'um beijo,

--Um beijo nervoso e lento...

O homem cede ao desejo

Como a nuvem cede ao vento.

 

Vinha longe a madrugada.

 

Por fim,

Largando esse corpo

Que adormecêra cansado

E que eu beijára loucamente

Sem sentir,

Bebia vinho, perdidamente,

Bebia vinho... até cahir.

 

António Botto

 



Manuel Maria às 16:13 | link do post | comentar

Domingo, 09.08.09

 

 

MQI que Ele te receba na sua Luz. .'.

.

 

 



Manuel Maria às 21:07 | link do post | comentar | ver comentários (3)

 

 

 

 

 

 

 

-- Pife, pufe, pafe, pefe

Pafe, pefe, pife, pufe --

A cacholeta no chefe --

-- Pife, pufe, pafe, pefe

Estoure como um tabefe

E o ventre de raiva entufe --

-- Pife, pufe, pafe, pefe

Pafe, pefe, pife, pufe!

 

Carlos de Souza

 

 

 



Manuel Maria às 21:02 | link do post | comentar

Quarta-feira, 05.08.09

 

 

foto recebida por mail,  e que, segundo o mesmo, é de 1986

 

A JOSÉ PINTO DE SOUSA

                                

 

PERSONAGENS

 

JOANA - psicóloga

MARIDO

CAMPOS - político

MANUELA- política

 

           

A cena passa-se em Lisboa

Atualidade.

 

Acto Único

 

Sala, secretária, relógio de mesa, etc., etc.

 

Cena I

 

JOANA, MARIDO (Vestidos para cerimónia e prontos para sair.) UMA PACIENTE (Que logo sai, à porta do fundo.)

 

JOANA - Sim, senhora; sim, senhora! Avie essa receita. Marcamos nova sessão para daqui a oito, pela mesma hora.

PACIENTE – E estes comprimidos são para tomar como de costume? (exibe o papel da receita.)

JOANA – Reduz a dose… meio cumprimido ao deitar e chega!

PACIENTE- Concerteza senhora doutora ( sai.)

MARIDO (Entrando por uma porta interior e sentando-se.) – Sempre entras nas listas desta vez?

JOANA- Duvido…

MARIDO - Porquê?

JOANA – O Louçã ainda está de trombas por causa da campanha!

MARIDO – Para que te meteste nessa treta?

JOANA (Ainda  passeando.)  - E quem imaginava que o Soares estava acabado?

MARIDO – Bem te avisei…

            JOANA – Se não for no Bloco, vou noutro… Verás!

            MARIDO - Fia-te na Virgem e não corras.

            JOANA - Estamos atrasados para sair…

            MARIDO (Consultando o relógio de mesa.) - Há duas horas e dois minutos.

            JOANA   (Embonecando-se ao espelho.) - Creio que não chegamos a tempo.

            MARIDO - E o táxi na porta há tanto tempo? Vamos?

            MARIDO - Vamos.  (Vão saindo. Batem palmas.)

            AMBOS - Bateram.

            MARIDO - Quem é?

            CAMPOS (Fora.) - Sou eu.

            JOANA - Eu quem?

            CAMPOS (No mesmo.) - Um  amigo.

            JOANA - Entre quem é.

            MARIDO –  (Espreitando à janela.) É  o Campos das obras públicas! Conheces… (Entra Campos. Pisa macio e fala descansado.)

 

 

Cena II

 

Os mesmos e Campos

 

            CAMPOS (À porta do fundo.) - Dás licença, joaninha?

            JOANA - Entra. (Vai outra vez por a mala na  secretária.)

            CAMPOS (Entrando e sentando-se numa poltrona que deve estar no meio da cena.) - Não te incomodes. Estou muito bem. E tu como tens passado desde a campanha do velho?

            JOANA - Bem, obrigado. O que pretendes?

            CAMPOS - Ah! Passava na rua… Vais no bloco?

            MARIDO - Que bloco?

            CAMPOS – O de esquerda, qual havia de ser?

            JOANA – Não.

            CAMPOS - Pois estás com azar!(Sinais de impaciência em joana e Marido.) O Louçã ainda não esqueçeu as presidenciais…(Recosta-se na poltrona.) Estou a ver…

            JOANA (Interrompe-o.) – Ó Campos, temos muita pressa e não podemos perder tempo. Íamos sair quando chegaste...

            CAMPOS (Erguendo-se.) - Nesse caso… Fica para outro dia... Eu vim só trazer um recado, mas... (Cumprimenta.) Joana... Caro amigo... (Vai saindo.)

            JOANA - Vem cá; explica já agora o que pretendes.

            CAMPOS (Voltando-se e preparando-se como para um discurso, sibilino.) – Somos amigos…

            JOANA – Nem tanto….

            CAMPOS –  Há um lugar em aberto na lista por Coimbra… Que  me dizes?

            JOANA – Digo-te o quê?

            CAMPOS – Estarias interessada?

            JOANA - E tu a dar-lhe!

            MARIDO - Deixa-o para lá. (Vai para junto de Joana.) Que maçador! Não chegaremos a tempo.

            JOANA – E  quem faz o convite?

            MARIDO (Olhando o relógio.) – Estamos atrasados.

            JOANA - Estamos com pressa...

            CAMPOS – O nosso primeiro… É evidente…

            JOANA – Não sei… Assim de repente… Bem vês!...

MARIDO (Olhando o relógio.) – Estamos atrasados.

            CAMPOS– Se aceitares… Arranja-se mais um tacho de bónus…. Que dizes?

JOANA – Não sei…

            MARIDO (Olhando o relógio.) – Que seca!

            CAMPOS – Assim na tua área… Que achas?

            JOANA - Passa bem.

            CAMPOS – Mas, Joana…

            MARIDO - Viva. (Volta-lhe as costas.)

            CAMPOS – Olha que te arrependes… (Saída falsa.)

            JOANA - Safa!

            MARIDO – Vamos, Vamos quanto antes! Pode vir outro... (Vão saindo.)

            CAMPOS (Voltando.) – Já agora…

            JOANA - Outra vez?

            MARIDO - Assustou-me até!

            JOANA – (Agarrando a mala.)Que pretendes agora?

            CAMPOS – E que dizias com um lugarzinho no governo também?

            AMBOS: Irra!

            CAMPOS  — Tableau. (Desaparece.)

 

 

Cena III

 

Os mesmos e Manuela

 

            JOANA - Vês, homem; vês como uma pessoa perde a cabeça?

            MARIDO - Sim, sim, mas vamos, anda daí!

            JOANA (Caindo na poltrona.) - E que dor de cabeça me fez este gajo!...

            MARIDO - Espera... vou buscar a garrafinha de água-flórida. (Sai e volta com a garrafinha.)

            JOANA - Depressa... depressa, homem! (O marido esfrega-lhe as frontes com água-flórida.) Bem... chega... aliviou... Aí! que ferroadas! deita a garrafinha em cima a mesa e vamos, vamos! (O marido deita a garrafinha sobre a mesa e vai dar o braço a Joana.)

            MARIDO - Vamos! (Saem e voltam.) Esqueci-me das chaves. (Entra à direita baixa.)

            JOANA (Falando para dentro.)  Que demora, homem, que demora! Ainda há- de vir mais alguém, verás! (Passeia.) Então não achas essas chaves! Aí! minha cabeça! (Quebra-se alguma coisa dentro.) O que foi isso?! O que foi isso?! (Corre também para a direita baixa.)

            MARIDO (Dentro.)  - O meu frasco de água de colónia!

            JOANA (Dentro.) - Que pena!

            MARIDO (Dentro.) - Ah! cá estão as chaves! (Voltam à cena, de braço dado e dirigem-se para a porta.)

            JOANA- Já estou cansada. (Procura na mala.) Não tenho lenço.

MARIDO - Oh que maçada! Quanto mais pressa, mais vagar. (Sai correndo pela direita baixa.)

            JOANA – Vê na cómoda!

            MARIDO (Voltando com um lenço na mão.) - Toma, toma... Gaita! (Dá-lho.)

            JOANA - Vamos! (Encaminham-se para a saída. Batem à porta.)

            AMBOS - Não!...

            JOANA (Fora de si.) - Não estou em casa!

            MANUELA (Espreitando.) – Dão licença?...

            AMBOS – Outra?...

            JOANA (Caindo extenuada na poltrona.)  - Uf!

 

Cai o Pano.

  



Manuel Maria às 00:42 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Segunda-feira, 03.08.09

 

 
Foto retirada do Panoramio 

 

Olhos azuis

Aquosos como um rio,

Ora levando as hortas,

Ora secando no leito;

Difícil era saber onde acabava o homem

E começava a água...

 

Pois estes Olhos d’agua,

Vermelhos da lama e lodo

Do Poço da Andorinha,

Descendo o Pindelo,

Engrossando o Côa,

Mansos desaguaram

No mar.

 



Manuel Maria às 18:38 | link do post | comentar

Quarta-feira, 08.07.09

 

  

a este moto:

Quem ora soubesse

onde o Amor nasce,

que o semeasse!

  

VOLTAS

 

D'amor e seus danos

me fiz lavrador;

semeava amor

e colhia enganos;

não vi, em meus anos,

homem que apanhasse

o que semeasse.

 

Vi terra florida

de lindos abrolhos,

lindos para os olhos,

duros para a vida;

mas a rês perdida

que tal erva pace

em forte hora nace.

 

Com quanto perdi,

trabalhava em vão;

se semeei grão,

grande dor colhi.

Amor nunca vi

que muito durasse,

que não magoasse.

 

 

Luís de Camões

 

 



Manuel Maria às 09:28 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Quarta-feira, 01.07.09

 

 

 

No terceiro episódio do primeiro canto, aparece a Dante um vulto que ele não distingue bem se é um fantasma ou uma pessoa viva:


"Mentre ch'i'  ruvinava in basso loco,
dinanzi alli occhi mi si fu offerto
chi per lungo silenzio parea fioco.

Quando vidi costui nel gran diserto,
"Miserere  di me", gridai a lui,
qual che tu si, od ombra od omo certo
!"

 [Enquanto eu me arruinava nesse lugar baixo,
diante de meus olhos se me ofereceu
quem por longo silêncio parecia fraco.

Quando vi esse aí no grande deserto,
"Tem pena de mim", gritei a ele,
quem
quer que tu sejas ou alma ou homem certo"]
(Dante, Inferno, I, 61-66)

            E Dante vai atribuir essa fraqueza do vulto, ao fato de que a pessoa que lhe apareceu estava assim fraca: "chi per lungo silenzio parea fioco".
[quem por longo silêncio parecia fraco],
por estar em silêncio há muito longo tempo:

            Ora, quem apareceu A Dante foi Virgílio, o grande poeta latino, que Dante – que conforme explicámos anteriormente – representa a Razão Natural, a verdade revelada.

            Era, pois, a razão, que estava enfraquecida, pelo silêncio. Aqui silêncio é o contraponto da palavra. A verdade revelada manifesta-se pela palavra, como no Génesis: “No princípio era o Verbo”, no Antigo Testamento, na Tora e Corão pela palavra do profeta, no Novo Testamento pela palavra de Cristo e dos Apóstolos.

            Não é por acaso que na Eneida, --e na Divina Comedia -- Virgílio faz o papel do mistagogo (mestre) que guia um iniciado até o conhecimento dos mistérios arcanos.
 É como mestre gnóstico que Dante se lhe dirige:

"Miserere  di me", gridai a lui,
qual che tu si, od ombra od omo certo!"

[Tem pena de mim, gritei-lhe,
quem quer que sejas, ou alma ou certamente um homem]

            E Virgílio, descreveu-se a Dante como mestre no conhecimento gnóstico. Um homem incomum, iniciado nos verdadeiros mistérios que o convida a realizar a viagem iniciática:

"Rispuosemi: "Non omo, omo già fui,

Ma tu perchè ritorni a tanta noia?
perchè non sali il dilletoso monte
ch'è principio e caggion di tutta gioia?

[Respondeu-me: "Não sou homem, homem já fui,

Mas tu, porque retornas a tanta angústia?
Porque não sobes o amável monte
que é princípio e causa de toda alegria?
].
(Dante, Inferno,  I, 67-78)

            E Dante responde a Virgílio pedindo-lhe ajuda contra a Loba (ambição das riquezas), invocando o amor com que procurou o seu exemplo:

"rispuos' io lui com vergognosa fronte.

O delli altri poeti onore e lume,
vagliami 'l lungo studio e 'l grande amore
che m'ha fatto cercar lo tuo volume.

...

aiutami da lei, famoso saggio,
ch' ella mi fa tremar le vene e i polsi".

[respondi eu com envergonhada fronte.
"Ó dos demais poetas honra e luz,
valha-me o longo estudo e o grande amor
que me fizeram procurar o teu volume.

ajuda-me contra ela, famoso sábio,
porque ela me faz tremer as veias e os pulsos"].
(Dante, Inferno, I, 79-90).

            Dante não pede ajuda contra a onça ou contra o Leão, mas contra a Loba, porque esta representa a sede insaciável de coisas materiais, vício no qual Dante vê o oposto da "sabedoria" gnóstica, do conhecimento salvador. Pala concupiscência, somos atraídos desordenadamente pelos bens materiais. Ora, a Gnose, condenando toda matéria, condena todas as coisas materiais: prazeres, riquezas, propriedades, fama, honras, etc.

            Virgílio dissuade Dante de enfrentar a loba, como lhe indicará outro caminho diverso do que o do simples retorno à "selva oscura" dos vícios, a "questo loco selvaggio":

 

"A te convien tenere altro viaggio"
rispuose poi che lacrimar mi vide,
"se vuo' campar d' esto loco selvaggio:

chè questa bestia, per  la qual tu gride,
non lascia altrui passar per la sua via,
ma tanto lo 'mpedisce che l'uccide;

["A ti convém seguir outra viagem",
respondeu-me depois que me viu chorar,
"se quiseres escapar vivo deste local selvagem:
porque esta fera, pela qual tu gritas,
não permite que outrem passe por seu caminho,
mas tanto o impede que o mata;
]
(Dante, Inferno, I,  91-102)

           

O caminho alternativo que Virgílio propõe a Dante, é o caminho que aprece já numa lenda shiita persa, contada por Shihâbboddin Yahya Sohrawardi, no século XII, -- o "Conto do Arcanjo cor de púrpura"-- que fala de um personagem perdido num deserto e que, desejando alcançar a fonte da vida, é socorrido por um ser luminoso, que lhe propõe um outro caminho de salvação: que ele faça uma viagem que começa na região das trevas para alcançar a luz.

"Ond' io per lo tuo me' penso e discerno
che tu mi segui, e io saró tua guida,
e trarrotti di qui per luogo etterno,

ove udirai le disperatte strida,
vedrai  li antichi spiriti dolenti
che la seconda morte ciascun grida;

e vederai color  che son contenti
nel foco, perchè speran di venire
quando che sai alle beate genti.

Alle qua' poi se tu vorri salire,
anima fia a ciò più di me degna:
con lei ti lascerò nel mio partire;
"

[De onde, penso  e discerno que para ti é melhor
que me sigas, e eu serei teu guia,
e tirar-te-ei daqui por um lugar eterno.
onde ouvirás os desesperados gritos,
verás ao antigos espíritos sofredores
que pela segunda morte cada um clama;

e verás aqueles que estão contentes
no fogo, porque esperam chegar,
quando quer que seja, até aos bem aventurados.
Aos quais, depois, se quiseres subir até lá,
fará isso uma alma mais digna de mim:
com ela
[Beatriz] deixar-te-ei na minha partida;]
(Dante, Inferno, I, 112 - 129).

           

            O caminho alternativo, que Virgílio propõe a Dante não é o iluminado pelo Sol, mas "la via che era smarrita" [o caminho que estava escondido], o caminho subterrâneo, que partiria do inferno, onde estão as almas desesperadas, gritando de dor e clamando que, se possível, lhes viesse uma segunda morte; depois, passando pelo purgatório, onde as almas, certas de que um dia se salvarão, por essa esperança, estão contentes, embora sofrendo no fogo.

 Virgílio (Razão Natural) avisa que não poderá levar Dante ao céu, pois como pagão não é digno disso. Quem o levará é Beatriz (Sabedoria).

Na conclusão do canto primeiro, parece-nos claro que essa viagem é alegoria de uma iniciação que tem por fundamento uma doutrina hermética e gnóstica. O pedido que Dante faz a Virgílio é elucidativo:

" E io a lui: "Poeta, io ti richeggio
…,

che tu mi meni là dove or dicesti,
sì ch'io veggia la porta di San Pietro

Allor si mosse, e io li tenni retro.

[E eu disse a ele: 'Poeta, eu te rogo

que me conduzas lá onde agora disseste,
de tal modo que eu veja a porta de São Pedro

Então ele se moveu, e eu lhe fui atrás].
(Dante, Inferno, I, 130-136)


            Dante pede que, de facto, Virgílio o conduza até chegar à porta de São Pedro, isto é, até o céu, e que ele veja também aqueles que Virgílio faz ou diz tão felizes e tristes, no Purgatório.

           ***

CONCLUINDO:

Da leitura deste primeiro canto (Inferno) da Divina Comédia, devemos concluir que Dante Alighieri era Gnóstico e a sua obra tem uma leitura oculta inacessível a qualquer não iniciado.

Nem Beatriz é quem se pensa, nem o Inferno é o que parece. Um é a Sabedoria; outro, um caminho iniciático com sete níveis simbólicos em que se progride, conforme o grau de iniciação.

Isto não é de espantar em Dante, porque faz parte da história e da obra de muitos homens geniais que se podiam citar. Nadir Afonso, um génio da pintura, resumiu bem esta busca inata da Sabedoria quando afirmou que “O homem se volta para a geometria como as plantas se voltam para o sol; é a mesma necessidade de clareza e todas as culturas foram iluminadas pela geometria, cujas formas despertam no espírito um sentimento de exactidão e de evidência absoluta” (Nadir Afonso, 2009, Na Agenda Cultural de Leiria a propósito da sua exposição de pintura no Edifício do Banco de Portugal de Leiria).

Como os versos de Dante, as palavras de Nadir Afonso para “la gente grossolana” nada dizem porque são entendidas pelo vulgo como aludindo à geometria da dimensão, do espaço e das formas, mas para “la gente de intelletti sani” têm um significado oculto, profundo, porque aludem à geometria dos símbolos, que é a verdadeira Sabedoria.

 



Manuel Maria às 23:47 | link do post | comentar

  

 

Al-Mu’tamid Ibn ‘Abbâd, rei-poeta, natural de Beja, foi governador de Silves e depois rei de Sevilha e Córdova nos fins do séc. XI, onde pontificou numa esplendorosa corte de poetas, filósofos e artistas.

Incapaz para deter a pressão de Afonso VI a norte, al-Mu’tamid viu-se obrigado a chamar os Almorávidas do Norte de África para o ajudarem a combater as tropas cristãs. Mas estes acabaram por aprisiona-lo levando-o em 1091 para o cativeiro de Aghmat (Marrocos) onde morreu em condições deploráveis, após cinco anos de grande sofrimento e estóica resignação.

É deste período a sua melhor poesia, baseada na pedagogia do rigor divino, em que o mal é apenas uma face do amor e o sofrimento é uma via para a auto descoberta, numa semelhança impressionante com a personagem bíblica de Job.

Venerado como santo ao longo destes séculos, repousa numa campa rasa ao lado da sua companheira ‘Itimad que lhe inspirou versos lindíssimos como este:

 

Por receio de quem espia

Com muita inveja a roer

Ela não veio n esse dia

P’ra assim traída não ser

P’la luz que do rosto esplende

P´las jóias a tilintar,

E pelo perfume de âmbar

A que o corpo lhe rescende:

É que ao rosto, com o mesmo manto,

Tapá-lo ‘inda poderia,

E as jóias, entretanto,

Facilmente as tiraria,

Mas a fragrância do encanto,

P’ra ocultá-la, que faria?

 

 



Manuel Maria às 17:29 | link do post | comentar

Sexta-feira, 26.06.09

 

 

 

         Esta frase de Epiceto resumem bem o seguinte e magnífico texto do meu autor preferido:       

 

        […]«Mesmo que vivesses três mil anos, ou até trinta mil, lembra-te que a única vida que um homem pode perder é aquela que está a viver no momento; e mais, que ele não pode ter qualquer outra vida a não ser aquela que ele perde. Isto significa que uma vida mais longa ou mais curta vão dar ao mesmo. Porque o minuto que passa é o bem igual de todos os homens, mas o que já passou não é nosso.

        A nossa perda, portanto, limita-se àquele momento fugaz, uma vez que ninguém pode perder o que já passou, nem o que está ainda para vir — porque como é que ele pode ser despojado daquilo que não tem? Assim, duas coisas temos de ter em atenção: Primeiro, que todos os ciclos da criação, desde o princípio do tempo, têm o mesmo padrão recorrente, de modo que não importa que o mesmo espectáculo se observe durante cem anos ou durante duzentos, ou para sempre. Segundo, que quando aqueles de nós que vivem mais, e os que vivem menos, morrem, as suas perdas são perfeitamente iguais. Porque a única coisa de que o homem pode ser despojado é o presente, uma vez que isso é tudo o que ele possui, e ninguém pode perder o que não é seu.

        [..]Para uma alma humana, o maior dos males auto-infligidos é tornar-se (podendo) uma espécie de tumor ou abcesso no universo; porque contender com as circunstâncias é sempre uma rebelião contra a Natureza — e a Natureza inclui a natureza de cada parte individual. Outro mal é rejeitar um semelhante ou opor-se-lhe com más intenções, como os homens fazem quando estão zangados. Um terceiro, render-se ao prazer ou à dor. Um quarto, dissimular e mostrar insinceridade ou falsidade em palavras ou em actos. Um quinto, a alma não dirigir os seus actos e esforços para um objectivo determinado, e gastar as suas energias sem qualquer fim e sem o devido pensamento; porque mesmo a mais insignificante das nossas actividades deve ter um fim em vista — e para criaturas dotadas de razão, o fim é a conformidade com a razão e a lei da Cidade e Comunidade originais.

        Na vida de um homem, o seu tempo é apenas um momento, o seu ser um fluxo incessante, os sentidos uma vela mortiça, o corpo uma presa dos vermes, a alma um turbilhão inquieto, o destino, negro, e a fama, duvidosa. Em resumo, tudo o que é do corpo, é como água corrente, tudo o que é da alma, como sonhos e vapores; a vida, uma guerra, uma curta estadia numa terra estranha; e depois da fama, o esquecimento. Onde, pois, poderá o homem encontrar o poder de guiar e salvaguardar os seus passos? Numa e só numa coisa apenas: a Filosofia.

        Ser filósofo é manter o espírito divino puro e incólume dentro de si, para que ele transcenda todo o prazer e toda a dor, não empreenda nada sem um objectivo, ou com falsidade ou dissimulação, não fique na dependência das acções ou inacções dos outros, aceite todas e cada uma das prescrições como vindas da mesma Fonte donde ele próprio veio — e final e principalmente, para que espere a morte com dignidade, como nada mais do que a simples dissolução dos elementos de que todo o organismo vivo é composto.

        Se esses próprios elementos não se danificam com a incessante formação e re-formação, porquê olhar com desconfiança a transformação e dissolução do todo? Trata-se apenas do curso da Natureza; e no curso da Natureza não se encontra mal nenhum.» (Marco Aurélio, Livro 2 das Maditações)

 

  



Manuel Maria às 13:38 | link do post | comentar

Terça-feira, 16.06.09

 

 

 

 

No limite da tapada

As copas dos carvalhos,

Frondosos;

Ao longe o rumor da ribeira

Correndo em fio.

Os passos no restolho

Levantam uma perdiz

Do regato.

Golpe de asas assustado

Trajectória de fuga ascendente

Uma dor agúda no flanco…

 

E um mergulho

Numa moita de carrascos

Distante.

 

 



Manuel Maria às 11:02 | link do post | comentar | ver comentários (1)

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