Segunda-feira, 25.01.10

 



 

Um Juiz de Direito, do estado do Rio Grande do Sul, Brasil, proferiu uma sentença em forma de verso, num julgamento realizado em 21/1/2009 em acção que tratava de um pedido de indemnização por dano moral.

 

O autor da ação, patrão de uma empresa pública, queixava-se de ter sido ofendido na sua honra porque um trabalhador teria dito que não prestava contas das verbas públicas recebidas para a realização de eventos, salientando ainda que as afirmações foram publicadas também no jornal local A Platéia. O réu, evidentemente, negou as ofensas.

 

Aqui fica a sentença na íntegra, que demonstra bem como o direito é uma área muito criativa :


Este é mais um processo

Daqueles de dano moral
O autor se diz ofendido
Na Câmara e no jornal.
 

Tem até CD nos autos

Que ouvi bem devagar
E não encontrei a calúnia
Nas palavras do Wilmar.
 
Numa festa sem fronteiras
Teve início a brigantina
Tudo porque não dançou
O Rincão da Carolina.
 
Já tinha visto falar
Do Grupo da Pitangueira
Dançam chula com a lança
Ou até cobra cruzeira.
 
Houve ato de repúdio
E o réu falou sem rabisco
Criticando da tribuna
O jeitão do Rui Francisco

 

Que o autor não presta conta
Nunca disse o demandado
Errou feio o jornalista
Ao inventar o fraseado.

 

Julgar briga de patrão
É coisa que não me apraza
O que me preocupa, isso sim
São as bombas lá em Gaza.

 

Ausente a prova do fato
Reformo a sentença guerreada
Rogando aos nobres colegas
Que me acompanhem na estrada.

 

Sem culpa no proceder
Não condeno um inocente
Pois todo o mal que se faz
Um dia volta pra gente.

 

E fica aqui um pedido
Lançado nos estertores
Que a paz volte ao seu trilho
Na terra do velho Flores.”


(Proc. nº 71001770171)

 



Manuel Maria às 09:14 | link do post | comentar

Quarta-feira, 13.01.10

 

 

Dos mais formosos olhos, mais formoso

Rosto, qu’entre nós há, do mais divino

Lume, mais branca neve, ouro mais fino,

Mais doce fala, riso mais gracioso:

 

D’um angélico ar, de hum amoroso

Meneo, de hum spirito peregrino

S’acendeo em mim o fogo, de qu’indino

Me sinto, & tanto mais assi ditoso.

 

Não cabe em mim tal bemaventurança.

He pouco hua alma só, pouco hua vida;

Quem tivesse que dar mais a tal fogo.

 

Contente a alma dos olhos agoa lança

Pólo em si mais ter, mas he vencida

Do doce ardor, que não obedece a rogo

            António Ferreira séc. XVI

 



Manuel Maria às 08:57 | link do post | comentar

Quarta-feira, 23.12.09

 



Manuel Maria às 08:40 | link do post | comentar | ver comentários (1)

      Um texto do Mário Crespo publicado no JN

     O palhaço compra empresas de alta tecnologia em Puerto Rico por milhões, vende-as em Marrocos por uma caixa de robalos e fica com o troco. E diz que não fez nada. O palhaço compra acções não cotadas e num ano consegue que rendam 147,5 por cento. E acha bem.
      O palhaço escuta as conversas dos outros e diz que está a ser escutado. O palhaço é um mentiroso. O palhaço quer sempre maiorias. Absolutas. O palhaço é absoluto. O palhaço é quem nos faz abster. Ou votar em branco. Ou escrever no boletim de voto que não gostamos de palhaços. O palhaço coloca notícias nos jornais. O palhaço torna-nos descrentes. Um palhaço é igual a outro palhaço. E a outro. E são iguais entre si. O palhaço mete medo. Porque está em todo o lado. E ataca sempre que pode. E ataca sempre que o mandam. Sempre às escondidas. Seja a dar pontapés nas costas de agricultores de milho transgénico seja a desviar as atenções para os ruídos de fundo. Seja a instaurar processos. Seja a arquivar processos. Porque o palhaço é só ruído de fundo. Pagam-lhe para ser isso com fundos públicos. E ele vende-se por isso. Por qualquer preço. O palhaço é cobarde. É um cobarde impiedoso. É sempre desalmado quando espuma ofensas ou quando tapa a cara e ataca agricultores. Depois diz que não fez nada. Ou pede desculpa. O palhaço não tem vergonha. O palhaço está em comissões que tiram conclusões. Depois diz que não concluiu. E esconde-se atrás dos outros vociferando insultos. O palhaço porta-se como um labrego no Parlamento, como um boçal nos conselhos de administração e é grosseiro nas entrevistas. O palhaço está nas escolas a ensinar palhaçadas. E nos tribunais. Também. O palhaço não tem género. Por isso, para ele, o género não conta. Tem o género que o mandam ter. Ou que lhe convém. Por isso pode casar com qualquer género. E fingir que tem género. Ou que não o tem. O palhaço faz mal orçamentos. E depois rectifica-os. E diz que não dá dinheiro para desvarios. E depois dá. Porque o mandaram dar. E o palhaço cumpre. E o palhaço nacionaliza bancos e fica com o dinheiro dos depositantes. Mas deixa depositantes na rua. Sem dinheiro. A fazerem figura de palhaços pobres. O palhaço rouba. Dinheiro público. E quando se vê que roubou, quer que se diga que não roubou. Quer que se finja que não se viu nada.
     Depois diz que quem viu o insulta. Porque viu o que não devia ver.
    O palhaço é ruído de fundo que há-de acabar como todo o mal. Mas antes ainda vai viabilizar orçamentos e centros comerciais em cima de reservas da natureza, ocupar bancos e construir comboios que ninguém quer. Vai destruir estádios que construiu e que afinal ninguém queria. E vai fazer muito barulho com as suas pandeiretas digitais saracoteando-se em palhaçadas por comissões parlamentares, comarcas, ordens, jornais, gabinetes e presidências, conselhos e igrejas, escolas e asilos, roubando e violando porque acha que o pode fazer. Porque acha que é regimental e normal agredir violar e roubar.
     E com isto o palhaço tem vindo a crescer e a ocupar espaço e a perder cada vez mais vergonha. O palhaço é inimputável. Porque não lhe tem acontecido nada desde que conseguiu uma passagem administrativa ou aprendeu o inglês dos técnicos e se tornou político. Este é o país do palhaço. Nós é que estamos a mais. E continuaremos a mais enquanto o deixarmos cá estar. A escolha é simples.
     Ou nós, ou o palhaço.

Post retirado do Blog "Kaos"



Manuel Maria às 08:32 | link do post | comentar

 

  

 

 

La luna vino a la fragua

con su polisón de nardos.

El niño la mira mira.

El niño la está mirando.

En el aire conmovido

mueve la luna sus brazos

y enseña, lúbrica y pura,

sus senos de duro estaño.

—Huye, luna, luna, luna.

Si vinieran los gitanos,

harían con tu corazón

collares y anillos blancos.

—Niño, déjame que baile.

Cuando vengan los gitanos,

te encontrarán sobre el yunque

con los ojillos cerrados.

—Huye, luna, luna, luna,

que ya siento sus caballos.

—Niño, déjame; no pises

mi blancor almidonado.

El jinete se acercaba

tocando el tambor del llano.

Dentro de la fragua el niño

tiene los ojos cerrados.

Por el olivar venían,

bronce y sueño, los gitanos.

Las cabezas levantadas

y los ojos entornados.

Cómo canta la zumaya,

¡ay, cómo canta en el árbol!

Por el cielo va la luna

con un niño de la mano.

Dentro de la fragua lloran,

dando gritos, los gitanos.

El aire la vela, vela.

El aire la está velando.

Garcia Lorca - Romanceiro Gitano



Manuel Maria às 08:04 | link do post | comentar

Quarta-feira, 11.11.09

 

 

Pela estrada desce a noite 
Mãe-Negra, desce com ela...

Nem buganvílias vermelhas, 
nem vestidinhos de folhos, 
nem brincadeiras de guisos, 
nas suas mãos apertadas. 
Só duas lágrimas grossas, 
em duas faces cansadas.

Mãe-Negra tem voz de vento, 
voz de silêncio batendo 
nas folhas do cajueiro...

Tem voz de noite, descendo, 
de mansinho, pela estrada...

Que é feito desses meninos 
que gostava de embalar?...

Que é feito desses meninos  
que ela ajudou a criar?... 
Quem ouve agora as histórias 
que costumava contar?...

Mãe-Negra não sabe nada...

Mas ai de quem sabe tudo, 
como eu sei tudo 
Mãe-Negra!...

Os teus meninos cresceram, 
e esqueceram as histórias 
que costumavas contar...

Muitos partiram p'ra longe, 
quem sabe se hão-de voltar!...

Só tu ficaste esperando, 
mãos cruzadas no regaço, 
bem quieta bem calada.

É a tua a voz deste vento, 
desta saudade descendo, 
de mansinho pela estrada... 

Alda Lara (Angola 1931-1962)

Obs: Este poema foi escrito aos 21 anos, quando Alda cursava medicina em Portugal. Mãe - Negra é Africa; e o pema retrata a saudade da terra natal.

 



Manuel Maria às 02:30 | link do post | comentar

Terça-feira, 10.11.09

 

 Foto de Lobo Duarte

 

Hoje o post é sobre o José Lobo Duarte, um amigo pintor e poeta de Coimbra, ainda pouco conhecido, e do qual tive a honra de apresentar o primeiro livro na RTP2. É possivelmente um dos maiores poetas surrealistas portugueses, a par de Cesaryny, e vai editar novo livro, longe das parangonas dos media, a que é avesso. Aqui ficam dois textos (revistos por mim) do poeta; deliciem-se, porque a posteridade vai falar dele:

 

I - Tenho um pensamento.

Tenho um pensamento; e não tenho coisa alguma, que não seja ouvir, esquecer; e ainda essa tua musica! Eu sei lá onde começa a eternidade! São as palavras que limitam; não os teus braços… O teu corpo…

  O grito caiu-te nas mãos? Também nas minhas, como gotas de água. Tenho um pensamento; mas és tu que me guias, que tens os olhos tristes e os lábios doces; e é daí a poesia pura, mas basta a natureza e o instinto dos homens para, que isto e o mais, se acrescente á definição de poesia.

 Tenho um pensamento; e é assim uma despedida; mas a musica não deixa que vá; e mais forte ainda é a esperança dos homens. Se eu partir, como poderei ver a esperança dos homens, assim sentida, na perspectiva física, na dúvida que há com a morte e com a fé?

Tenho um pensamento e não tenho, porque sou um pássaro que voa; um momento que escapa. Morremos quando todos os momentos voam do nosso corpo para a paixão e regressam ao momento original, em que não será falsa a pronúncia do amor.

Tenho um pensamento e não tenho; este absurdo, mata-me! Falam-me da guerra e do rapaz nu com uma flor, que afinal não era.

 

A menina do terceiro andar, que anda na catequese, disse que era um pénis…

 

Era o milagre do pénis!

 

Que trazes nesse regaço?

 

São flores senhor…

 

Flores!?  Mas que espanto esse,

que vejo no teu corpo!

 

A menina do terceiro, era afinal, e este era o assunto, um menino com pénis, localizado naquele ponto.

 

Tenho um pensamento e não tenho; e isso me diverte e repugna.

 

São pénis, senhor…

 

E toda esta afirmação, com reticencias para o milagre da vida, que é esta saliência. Nasceu disto esta nação; e afinal é o cu, a aparência da portuguesa condição.

 

Tenho um pensamento, uma folha de trinta e cinco linhas e uma corda...

 

Amanhã a vida anda á roda!

 

 

 

II- A água que posso imaginar, na ideia do desejo que tenho de ti.

  

Atravesso o rio, as paredes de água e a sede do teu corpo, a tua cidade onde da janela me chamas; e o meu pensamento anda sempre em viagem; e os pássaros levam em viagem, a minha vontade de ir a outros lugares.

Estou mais a teu lado, quando me afasto da tua presença e trago de volta o paraíso ao teu corpo. Atravesso a água e bebo toda a água que posso imaginar, na ideia do desejo, que tenho de ti.

O meu pensamento anda sempre em viagem. Canto as canções que não me pertencem; e tu entras nessas canções e nas paisagens, que ficam dentro de mim, quando fecho os olhos e as faço desaparecer.

 A tua cidade chama-me; e também tu, quando o fazes e me continuas a iluminar!

 

                                                         José Lobo Duarte

 



Manuel Maria às 16:08 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Quinta-feira, 05.11.09

 

castelo.jpg

 

 

Relatório que fez Misael, anjo enviado à Terra, no ano 2009 da era de Jesus de Nazaré:

A Terra era uniforme e vazia e as trevas cobriam o abismo. Deus decidiu fazer o céu, a terra e a luz.

            Traçou um esboço a guache creme. Primeiramente pintou uma aguada em toda a área, deixando as zonas claras com a cor do vazio. A cor foi obtida misturando branco opaco, negro-de-fumo, anil e um toque de carmesim. Pintou tons mais escuros da mesma mistura sobre a aguada inicial, ainda húmida. As áreas suaves do céu, mais claras, obteve-as passando uma esponja. As colinas, os fundos e alguns recortes do céu foram acrescentados depois de o resto ficar seco.

            O efeito dos raios solares e o efeito do nevoeiro obteve-os com aguadas transparentes de branco opaco e um pouco de ocre amarelo.

            Afastando-se do cavalete, Deus viu que tudo isto era belo. Então pintou todos os animais que existem nos oceanos, na terra e no céu; abençoou-os e ordenou que se multiplicassem.

            E apreciando a magnífica obra que saíra do seu pincel, ficou satisfeito. Disse então: «façamos o homem à nossa imagem e semelhança, para que domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos e sobre todos os répteis que rastejam sobre a terra».

Depois, entre os Querubins do sétimo céu que presidem às galáxias do universo, pôs Uriel num lugar proeminente, encarregando-o do departamento da via láctea, sistema solar,  coadjuvado por vários arcanjos e anjos numa cadeia hierárquica de importância em função dos continentes, terra, mar e céu, por que respondiam.

E nesta hierarquia celeste, atribuiu Deus ao arcanjo Rafael a Terra, a Gabriel a porção da Terra que viria a ser Portugal e a mim, Misael, uma língua de terra da Malcata à Marofa.

Certa manhã, enfadado da rotina da corte celestial, desceu Uriel até mim e acordou-me:

- Misael, a estupidez e as discórdias dos teus protegidos irritaram o Senhor; de forma que se reuniram em concílio os querubins para decidirem se deviam castiga-los ou destruí-los. Vai a essa terra, examina tudo e conta-me o que vires, para que decida conforme o que me relatares.

- Mas, chefe – observei, ainda ensonado- não conheço ninguém naquele fim do mundo…

- Melhor ainda – retorquiu Uriel - assim serás imparcial.

Disfarçando-me de viajante, montei uma nuvem, e parti. Ao cabo de alguns dias, encontrei finalmente nas margens de um rio um grupo de operários que aparelhavam umas pedras; e junto a eles um grupo de três homens que orientavam os trabalhos.

 Dirigi-me primeiro a um dos operários que encontrei. Falei-lhe, e perguntei que obra era aquela em que trabalhavam.

- Não sabemos - replicou o operário;  e apontando para o grupo dos três homens - mas se queres saber, pergunta ali aos capatazes.

Acerquei-me então dos capatazes e perguntei-lhes que obra era aquela que faziam.

-É uma ponte – respondeu o primeiro - .

-Qual ponte, qual carapuça – respondeu o segundo- aqui vai ser um açude.

-Nada disso – respondeu o terceiro – um moinho é que faz aqui falta.

Espantado, misturei-me então com os operários, e conquistando-lhes a simpatia, pude assim saber que, por causa daquela discórdia que durava há anos, se acumulavam toneladas de pedra na margem com grande dispêndio de recursos e trabalho, sem que se visse algum resultado daquilo.

Naquela terra, alias, - explicaram os operários – todos sofriam do mal de inveja, não se entendendo para coisa nenhuma. Por isso nada se fazia de útil para o bem comum, com grave prejuízo de todos.

            Despedi-me dos operários e desci o rio, numa extensão de uma légua, atravessando tapadas, terras férteis cobertas de mato e giestas, alcançando um alto aberto com uma vista panorâmica, sobre uma paisagem deserta e calcinada: Numa ligeira elevação, a torre de menagem de um castelo, erguendo-se sobre os telhados vermelhos do casario, cuja ruína ofendia a vista.

Chegando à cidade, depois de outro quarto de légua a pé, atravessei as ruas completamente desertas e fui dar a uma praça onde, sentada na escadaria do chafariz, a meio do recinto, vi uma velha que gozava o sol da tarde.

Abeirando-me, perguntei-lhe:

-Boa velha, que é feito dos habitantes desta terra?

- Saiba o senhor – retorquiu a velha, levantando os olhos da renda em que trabalhava – que os novos partiram e os velhos foram morrendo.

O sol começava a descer no horizonte. Seguindo caminho, pela rua principal, que tinha um aspecto abandonado e desagradável, entrei num terreiro onde brincava uma criança. Aproximando-me:

- Qual o teu nome?

-João…

-E fazendo-lhe uma festa – brincas a quê?

-Ao faz de conta…

- E não avistando mais ninguém – Com quem?

-Com os meus amigos…

- Mas que amigos?

-Amigos de faz de conta…

Afeiçoando-me à criança, a única que vi no meu passeio, temi que aquela terra fosse condenada. Sentando-me num banco de pedra que ali havia, pus-me a cismar sobre o relatório que havia de apresentar a Uriel.

Eis como me desenvencilhei para apresentar esse relatório. Chamei a criança e levei-a a Uriel.

- Destruirias – disse – aquela terra, apesar deste único inocente?

Uriel compadeceu-se, deixando tudo como estava. E apanhando uma corrente ascendente, juntando-se aos outros querubins, desapareceu no espaço sideral.

            É que para inferno –sentenciou Uriel- já têm que chegue!

 



Manuel Maria às 09:07 | link do post | comentar

Quarta-feira, 28.10.09

 

Conversão de S. Paulo a Caminho de Damasco (exposição do Seminário de Almada)

 

            «Deus não existe». E não existe porque nunca se deu ao trabalho em descer à dimensão espacio-temporal para falar com o grande génio da humanidade que é Saramago.

            É este o argumento idiota de um sofrível escritor que pensa ser o Nobel um certificado de autoridade intelectual e inteligência “erga omnes”.  

            A existência de Deus, até nem é uma questão de fé mas de lógica. Mas inteligência e rectidão intelectual, pelos vistos são talentos que Deus não distribuiu a Saramago. Por isso, releva-se-lhe a falta, porque não se lhe pode exigir o que manifestamente não tem.

            Não se lhe exigindo inteligência e rectidão intelectual, muito menos se lhe pede a clarividência mística do porteiro da Cartuxa de Évora, que ao argumento do nascimento do mundo pela explosão do Big Bang a partir do nada, contrapunha:

            -Pois… Mas se nasceu do nada, quem continha esse nada?

            As provas de São Tomás a respeito de Deus, são tão brilhantes, que conseguem convencer quem tenha o mínimo de inteligência e de rectidão intelectual. Muito antes dele, homens de uma grande rectidão intelectual, como Sócrates, Platão, Aristóteles, Séneca, Virgílio e Marco Aurélio chegaram à conclusão da existência de Deus.

Sócrates, às portas da morte rezava: «Causa das causas, tem piedade de mim…»

Cleanthes, discípulo do estóico Zenão, cantava o seguinte hino: « Altíssima Glória dos Céus, Senhor de variado nome eterno, perpétuo seja o teu poder! Abençoado sejas, ó grande arquitecto da criação, que ordenas todas as coisas segundo as tuas leis! Evocar o teu nome é próprio e justo para o mortal, pois somos nascidos de ti…»

Séneca descrevia o Supremo Poder como «Deus Todo Poderoso», ou «Sabedoria incorpórea, ou Espírito Santo, ou ainda Destino», numa antecipação da doutrina cristã da Santíssima Trindade, de que a Igreja suprimiu o destino.

            A existência de Deus é uma verdade evidente em si mesma, porque na preposição “Deus existe”, o predicado identifica-se com o sujeito, porque Deus é o próprio ente.

            Mas em relação a nós, que desconhecemos a natureza divina, ela não é evidente, precisando de ser demonstrada. Mas o que se demonstra, não é evidente e o que é evidente não precisa de ser demonstrado.

            O que tornaria à partida paradoxal a demonstração da existência de Deus. Por isso São Tomás diz que a existência de Deus é antes de mais, um artigo de fé e como tal não precisa de ser demonstrado.

            Mas mesmo assim, podemos chegar a Deus pela via da demonstração, das quais São Tomás distingue dois tipos:

a)    Demonstrandum propter quid (devido a quê) que se baseia na causa e parte do anterior (causa) para o posterior (efeito)

b)    Demonstrandum quia (porque) que arte do efeito para conhecer a causa.

Quando vemos um efeito pela sua causa, por aquele acabamos por chegar a esta, pois o efeito depende da causa e de algum modo, tem qualidades da causa.

            Assim, embora Deus não seja evidente para nós, é demonstrável pelos efeitos que dele conhecemos. Como dizia S. Paulo «A existência de Deus […] pode ser conhecida pela razão (Rom. I, 19).

            A fé assenta e pressupõe um conhecimento natural e racional, assim como a verdade pressupõe a mentira e a perfeição a imperfeição. Só quem conhece ou entende a demonstração filosófica da existência de Deus, aceita a sua existência com uma fé esclarecida.

            Ora, não primando Saramago pela inteligência e honestidade intelectual, admiração seria que admitisse a existência de Deus sequer pela via da fé.

            Querem ver como pela via da razão São Tomás (1.ª parte da Suma Teológica art. 3.º da questão 2) demonstra a existência de Deus?

Basta a prova do movimento no universo:

As coisas mudam; é um facto. Uma pessoa nasce, cresce e morre; as estações do ano sucedem-se; um regato corre e seca, etc.

Na mudança das coisas podemos distinguir as qualidades já existentes e as qualidades que podem vir a adquirir pela mudança. Aquelas são as existentes em acto; estas são as existentes em potência.

Vg. Uma parede branca tem a brancura em acto e o vermelho em potência porque pode ser pintada desta cor.

A mudança, ou movimento é a passagem de potência (x) a acto (x) traduzida na seguinte fórmula:

M = PX---»AX

Vg. Pintar de vermelho a parede branca.

Ora nada passa de potência a acto sem uma entidade estranha que tenha aquela qualidade em acto.

Vg. A parede branca só fica vermelha se receber o vermelho da tinta.

Concluindo; tudo o que estava em potência e muda é movido por outrem. E para mover é preciso ter uma qualidade em acto. No que decorre que é impossível que uma coisa esteja ao mesmo tempo em potência e acto para uma mesma qualidade.

V.g. Se a parede está branca em acto, ela tem potência para ser vermelha. Se ela está vermelha em acto ele não tem potência para ser vermelha.

É por isso impossível que uma coisa seja ao mesmo motor e móvel para uma mesma qualidade; isto é, que uma coisa se mude a si mesma. Resumindo: tudo o que muda, é por acção externa.

E as mudanças podem dar-se numa sequência definida de mudanças que pode exemplificar-se na seguinte fórmula invertida:                                                                         

PX(6)---»AXPX(5)---»AXPX(4)---»AXPX(3)---»AXPX(2)---»AX(1)

Definida, porque se fosse indefinida, não havia um primeiro ente que originasse a sequência, o que seria absurdo porque para se produzir movimento num ente é preciso sempre outro com a qualidade em acto e porque tinha que a potência preceder o acto e nunca podia haver uma acto anterior à potência, impossibilitando-se assim o movimento.

Portanto a sequência do movimento não pode ser indefinida, e aquela tem de ser originária de um ente que seja apenas em acto, que seja o primeiro motor.

Este primeiro motor não pode ser movido, porque é puro acto (tem todas as perfeições) sem potência passiva, porque se a tivesse seria movido por um anterior, como é lógico.

Este Acto Puro, sem nenhuma potência passiva é Deus. 

E como Acto Puro, não tem passado nem futuro; é, simplesmente. Por isso quando Moisés perguntou a Deus qual era o seu nome este respondeu-lhe: «Eu sou Aquele Que é», e quando Jesus discutiu com os fariseus lhes disse também: «Antes que Abraão fosse, Eu sou» (Jo. VIII, 58)

 Caramba! Nem é preciso ser mais inteligente que Saramago… Os movimentos dão-se no espaço e tempo que são mensuráveis e como tal a sua sequência tem que ser finita, o que é comprovado pela teoria do Big Bang, pela lei da entropia e até pela teoria da evolução.

Deus portanto existe. É o ser em Acto Puro que não muda, independentemente da vontade de Saramago.

 Até o porteiro da Cartuxa de Évora, que foi das pessoas mais simples que alguma vez conheci, no seu misticismo chegou à conclusão de que Deus é «Aquele que tudo contém…»

Mesmo a parvoíce de Saramago!

 



Manuel Maria às 16:33 | link do post | comentar

Terça-feira, 20.10.09

 

 

"Há muito tempo que não escrevo. Têm passado meses sem que viva, e vou durando, entre o escritório e a fisiologia, numa estagnação íntima de pensar e de sentir. Isto, infelizmente, não repousa: no apodrecimento há fermentação." FP

 



Manuel Maria às 13:42 | link do post | comentar

Segunda-feira, 07.09.09

 

 

Estas férias li um magnífico poeta que entoa como ninguém a simplicidade da vida humana, resumindo-a ao amor. Celebra o amor à maneira das Vestais da Grécia antiga, onde o vinho adquire a função sagrada de induzir o êxtase dos sentidos. Aqui fica um dos seus poemas, na grafia do século XIX:

 

 

Andáva a lua nos céus

Com o seu bando de estrellas.

 

Na minha alcova,

Ardiam vellas,

Em candelabros de bronze.

 

Pelo chão, em desalinho,

Os velludos pareciam

Ondas de sangue e ondas de vinho.

 

Elle olhava-me scismado;

E eu,

Placidamente, fumava,

Vendo a lua branca e núa

Que pelos céus caminhava.

 

Aproximou-se; e em delirio

Procurou ávidamente,

E ávidamente beijou

A minha boca de cravo

Que a beijar se recusou.

 

Arrastou-me para Elle,

E, encostado ao meu hombro,

Fallou-me d'um pagem loiro

Que morrêra de Saudade,

Á beira-mar, a cantar...

 

Olhei o céu!

Agora, a lua, fugia,

Entre nuvens que tornavam

A linda noite sombría.

 

Déram-se as bocas n'um beijo,

--Um beijo nervoso e lento...

O homem cede ao desejo

Como a nuvem cede ao vento.

 

Vinha longe a madrugada.

 

Por fim,

Largando esse corpo

Que adormecêra cansado

E que eu beijára loucamente

Sem sentir,

Bebia vinho, perdidamente,

Bebia vinho... até cahir.

 

António Botto

 



Manuel Maria às 16:13 | link do post | comentar

Domingo, 09.08.09

 

 

MQI que Ele te receba na sua Luz. .'.

.

 

 



Manuel Maria às 21:07 | link do post | comentar | ver comentários (3)

 

 

 

 

 

 

 

-- Pife, pufe, pafe, pefe

Pafe, pefe, pife, pufe --

A cacholeta no chefe --

-- Pife, pufe, pafe, pefe

Estoure como um tabefe

E o ventre de raiva entufe --

-- Pife, pufe, pafe, pefe

Pafe, pefe, pife, pufe!

 

Carlos de Souza

 

 

 



Manuel Maria às 21:02 | link do post | comentar

Quarta-feira, 05.08.09

 

 

foto recebida por mail,  e que, segundo o mesmo, é de 1986

 

A JOSÉ PINTO DE SOUSA

                                

 

PERSONAGENS

 

JOANA - psicóloga

MARIDO

CAMPOS - político

MANUELA- política

 

           

A cena passa-se em Lisboa

Atualidade.

 

Acto Único

 

Sala, secretária, relógio de mesa, etc., etc.

 

Cena I

 

JOANA, MARIDO (Vestidos para cerimónia e prontos para sair.) UMA PACIENTE (Que logo sai, à porta do fundo.)

 

JOANA - Sim, senhora; sim, senhora! Avie essa receita. Marcamos nova sessão para daqui a oito, pela mesma hora.

PACIENTE – E estes comprimidos são para tomar como de costume? (exibe o papel da receita.)

JOANA – Reduz a dose… meio cumprimido ao deitar e chega!

PACIENTE- Concerteza senhora doutora ( sai.)

MARIDO (Entrando por uma porta interior e sentando-se.) – Sempre entras nas listas desta vez?

JOANA- Duvido…

MARIDO - Porquê?

JOANA – O Louçã ainda está de trombas por causa da campanha!

MARIDO – Para que te meteste nessa treta?

JOANA (Ainda  passeando.)  - E quem imaginava que o Soares estava acabado?

MARIDO – Bem te avisei…

            JOANA – Se não for no Bloco, vou noutro… Verás!

            MARIDO - Fia-te na Virgem e não corras.

            JOANA - Estamos atrasados para sair…

            MARIDO (Consultando o relógio de mesa.) - Há duas horas e dois minutos.

            JOANA   (Embonecando-se ao espelho.) - Creio que não chegamos a tempo.

            MARIDO - E o táxi na porta há tanto tempo? Vamos?

            MARIDO - Vamos.  (Vão saindo. Batem palmas.)

            AMBOS - Bateram.

            MARIDO - Quem é?

            CAMPOS (Fora.) - Sou eu.

            JOANA - Eu quem?

            CAMPOS (No mesmo.) - Um  amigo.

            JOANA - Entre quem é.

            MARIDO –  (Espreitando à janela.) É  o Campos das obras públicas! Conheces… (Entra Campos. Pisa macio e fala descansado.)

 

 

Cena II

 

Os mesmos e Campos

 

            CAMPOS (À porta do fundo.) - Dás licença, joaninha?

            JOANA - Entra. (Vai outra vez por a mala na  secretária.)

            CAMPOS (Entrando e sentando-se numa poltrona que deve estar no meio da cena.) - Não te incomodes. Estou muito bem. E tu como tens passado desde a campanha do velho?

            JOANA - Bem, obrigado. O que pretendes?

            CAMPOS - Ah! Passava na rua… Vais no bloco?

            MARIDO - Que bloco?

            CAMPOS – O de esquerda, qual havia de ser?

            JOANA – Não.

            CAMPOS - Pois estás com azar!(Sinais de impaciência em joana e Marido.) O Louçã ainda não esqueçeu as presidenciais…(Recosta-se na poltrona.) Estou a ver…

            JOANA (Interrompe-o.) – Ó Campos, temos muita pressa e não podemos perder tempo. Íamos sair quando chegaste...

            CAMPOS (Erguendo-se.) - Nesse caso… Fica para outro dia... Eu vim só trazer um recado, mas... (Cumprimenta.) Joana... Caro amigo... (Vai saindo.)

            JOANA - Vem cá; explica já agora o que pretendes.

            CAMPOS (Voltando-se e preparando-se como para um discurso, sibilino.) – Somos amigos…

            JOANA – Nem tanto….

            CAMPOS –  Há um lugar em aberto na lista por Coimbra… Que  me dizes?

            JOANA – Digo-te o quê?

            CAMPOS – Estarias interessada?

            JOANA - E tu a dar-lhe!

            MARIDO - Deixa-o para lá. (Vai para junto de Joana.) Que maçador! Não chegaremos a tempo.

            JOANA – E  quem faz o convite?

            MARIDO (Olhando o relógio.) – Estamos atrasados.

            JOANA - Estamos com pressa...

            CAMPOS – O nosso primeiro… É evidente…

            JOANA – Não sei… Assim de repente… Bem vês!...

MARIDO (Olhando o relógio.) – Estamos atrasados.

            CAMPOS– Se aceitares… Arranja-se mais um tacho de bónus…. Que dizes?

JOANA – Não sei…

            MARIDO (Olhando o relógio.) – Que seca!

            CAMPOS – Assim na tua área… Que achas?

            JOANA - Passa bem.

            CAMPOS – Mas, Joana…

            MARIDO - Viva. (Volta-lhe as costas.)

            CAMPOS – Olha que te arrependes… (Saída falsa.)

            JOANA - Safa!

            MARIDO – Vamos, Vamos quanto antes! Pode vir outro... (Vão saindo.)

            CAMPOS (Voltando.) – Já agora…

            JOANA - Outra vez?

            MARIDO - Assustou-me até!

            JOANA – (Agarrando a mala.)Que pretendes agora?

            CAMPOS – E que dizias com um lugarzinho no governo também?

            AMBOS: Irra!

            CAMPOS  — Tableau. (Desaparece.)

 

 

Cena III

 

Os mesmos e Manuela

 

            JOANA - Vês, homem; vês como uma pessoa perde a cabeça?

            MARIDO - Sim, sim, mas vamos, anda daí!

            JOANA (Caindo na poltrona.) - E que dor de cabeça me fez este gajo!...

            MARIDO - Espera... vou buscar a garrafinha de água-flórida. (Sai e volta com a garrafinha.)

            JOANA - Depressa... depressa, homem! (O marido esfrega-lhe as frontes com água-flórida.) Bem... chega... aliviou... Aí! que ferroadas! deita a garrafinha em cima a mesa e vamos, vamos! (O marido deita a garrafinha sobre a mesa e vai dar o braço a Joana.)

            MARIDO - Vamos! (Saem e voltam.) Esqueci-me das chaves. (Entra à direita baixa.)

            JOANA (Falando para dentro.)  Que demora, homem, que demora! Ainda há- de vir mais alguém, verás! (Passeia.) Então não achas essas chaves! Aí! minha cabeça! (Quebra-se alguma coisa dentro.) O que foi isso?! O que foi isso?! (Corre também para a direita baixa.)

            MARIDO (Dentro.)  - O meu frasco de água de colónia!

            JOANA (Dentro.) - Que pena!

            MARIDO (Dentro.) - Ah! cá estão as chaves! (Voltam à cena, de braço dado e dirigem-se para a porta.)

            JOANA- Já estou cansada. (Procura na mala.) Não tenho lenço.

MARIDO - Oh que maçada! Quanto mais pressa, mais vagar. (Sai correndo pela direita baixa.)

            JOANA – Vê na cómoda!

            MARIDO (Voltando com um lenço na mão.) - Toma, toma... Gaita! (Dá-lho.)

            JOANA - Vamos! (Encaminham-se para a saída. Batem à porta.)

            AMBOS - Não!...

            JOANA (Fora de si.) - Não estou em casa!

            MANUELA (Espreitando.) – Dão licença?...

            AMBOS – Outra?...

            JOANA (Caindo extenuada na poltrona.)  - Uf!

 

Cai o Pano.

  



Manuel Maria às 00:42 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Segunda-feira, 03.08.09

 

 
Foto retirada do Panoramio 

 

Olhos azuis

Aquosos como um rio,

Ora levando as hortas,

Ora secando no leito;

Difícil era saber onde acabava o homem

E começava a água...

 

Pois estes Olhos d’agua,

Vermelhos da lama e lodo

Do Poço da Andorinha,

Descendo o Pindelo,

Engrossando o Côa,

Mansos desaguaram

No mar.

 



Manuel Maria às 18:38 | link do post | comentar

Janeiro 2010
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
26
27
28
29
30

31


Artigos recentes

Poesia No Direito

Retrato da Amada

Santo Natal!

O Palhaço

Romance de la luna, luna

Prelúdio

Lobo Duarte, Poeta Surrea...

Lá Na terra... Tudo Na Me...

José Saramago E Deus

Pausa para fermentação

Canção III de António Bot...

Para O Oriente...

Questão Brocardo

Equívoco Num Acto E Três ...

Olhos D'Agua

Lavrador Do Amor...

Leitura Iniciática do Inf...

Al-Mu’tamid Ibn ‘Abbâd O ...

«Somos Almas Que Carregam...

Perdiz

Leitura Iniciática do Inf...

A Ingenuidade De Um Conto...

Presunção E Água Benta...

In Illo Tempore

Podias Dividir O Meu Corp...

Precocidade Infantil

Propércio de Ovídeo 2,15 ...

As Origens Iniciáticas da...

A Preto e Branco!

Burrice...

Arquivo

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

links
Visitas
blogs SAPO
subscrever feeds