
O meu corpo,
Que um dia abriu como uma rosa ao sol
E a cada Outono perdeu as folhas,
Amorosamente se deitou na areia.
E o pensamento, agitado pela brisa marinha
Soltou amarras, partiu no vento,
Para lá do pinhal, para lá das serras,
Para a sagrada terra dos carvalhos negrais,
Onde o rio, com as suas hortas,
Sob a velhinha ponte rumorosamente passa,
Sem cântico, nem espuma,
Em direcção ao mar.
E no fim da manhã amena,
Quando o sol bem alto sobre o Carril,
Levanta a geada das hortas,
E se respira aquele imenso verde,
Na colina do castelo,
O pensamento abrindo-se como o mar
A todos os fluxos do mundo,
Senta-se na vizinhança tutelar
Do grande cedro.
E o rio,
Com os seus verdes limos,
Rindo e cantando,
Saltando as fragas,
Devolve ao mar as folhas perdidas
Da minha infância!
Como todo o objecto ritual, a pia baptismal encerra um simolismo geral, concretizado e completado pelo sentido particular atribuído à sua forma.
A pedra em que é feita simboliza a perenidade, a àgua a regeneração. A pia sendo constituída por uma bacia de água redonda, oval ou octogonal, ou por uma concha, representa o oceano primordial, as àguas da Génese, em que o espírito de Deus pairava para obter a criação. È em função a essas àguas, que a pia baptismal possui o poder de operar a regeneração, uma recriação.
Oval, como o ovo cósmico, resumo da criação total que se repete analogicamente no nascimento e renascimento de cada indivíduo, imagem da renovação perpétua da vida; Octogonal, porque oito é um número sagrado co cristianismo (oito beatitudes que definem o reino dos céus, o número do oitavo céu – o empíreo-, a oitava cor –branco, a veste dos neófitos-, oito é numero de pontas da Stela Maris, sinal do espírito sobre as àguas), concha, porque lembra a matriz universal, que é o continente das àguas originais e dos germes dos seres; evoca o o abismo obscuro da energia criadora, emblema do segundo nascimento; oval, como uma pérola tida como produzida pelo relâmpago penetrando a ostra, fruto da união da àgua e Fogo, evocando a concha o baptismo na àgua e a pérola o baptismo no fogo, o nascimento de cristo na alma pelo baptismo do fogo.
O simbolo Solar de Cristo e o simbolismo aquático da pia de Baptismo estão relacionados:
S. Macário fala da Luz inefável que é o senhor como «pérola celeste» e do baptismo como «o mergulho que extrai a pedra do mar. Mergulhai (pelo baptismo) extraí da àgua a pureza que se encontra nela como a péroloa da qual saíu a coroa da Divindade». Dionísio, o Areopagita com o baptismo a «matriz da geração» e a fonte da vida que nos alimenta espiritualmente. Esta fons vitae, é a que brotava no meio do Éden, do templo de Jerusalém, nas visões de Ezequiel (13.1) e de Zacarias (13.1) e que foi vista surgir do corpo divino, no gólgota (São João, 19, 34), essa fonte de àgua e sangue – de fogo- que dá vida eterna e fonte espiritual para o mundo: «Quem tem sede, que venha a mim e beba, e do seu seio brotarão rios de àgua viva» (S. João, 7, 37-38).
O Baptismo é um rito de regeneração, de recriação espiritual, faz o neófito participar na morte e ressureição de Cristo e na Igreja Universal: «Sepultados com Cristo no baptismo, no baptismo ressuscitastes com Ele pela fé na potência de Deus que o ressuscitou dos mortos» (col.2.12).
O gesto central neste ritual é a emersão da água, que simboliza, como já referimos numa primeira parte deste estudo, a entrada no túmulo, a morte de homem velho; e emersão da àgua que simboliza a ressureição o nascimento do homem novo. O homem pecador é simbólicamente destruído restituído ao estado informe do caos e renasce um homem novo por acção da luz primoridial, correspondendo ao fiat lux da criação original, numa alusão ao Espírito de Deus cobrindo as àguas primordiais e ao dilúvio, imagem de regeneração.
Esta ligação da simbologia solar à aquática estava mais patente na cerimónia perliminar do ritual antigo do baptismo, que já despareceu no ociedente, quando o recipiendário abjurava satanás de mãos estendidas para ociedente, império das trevas, onde se punha o Sol, e consagrava-se de mãos esendidas para oriente, ponto onde renasce Cristo, o Sol.
O banho baptismal é simultaneamente um banho aquático e solar, em que o neófito é baptizado na água e no fogo, sai da água «filho da luz»(epif.5,8), como quando o sol renasce sobre as àguas do mar e que São Gregório Nazanieno referia ao dizer que as àguas iluminadas pelo Sol renascente regeneram os novos baptizados que «foram encontrados pelo raio do Sol da ùnica Divindade».
Esta simbologia solar e aquática do baptismo como nascimento espiritual, traduzia-se também nos ritos orientais da epifania cristã, perdidos na liturgia ocidental, que também era uma festividade do fogo e das águas, em que se realizava uma procissão com archotes, a benção das àguas e das fontes, banho comum dos crentes nos rios e fontes santificados, infusão na àgua de um carvão incandescente, incensamento da água, crisma sagrado, colocação na água de uma cabaça com cinco velas acesas, e regresso à igreja onde se benzia a àgua baptismal.
A própria benção das águas no rito maronita interpreta o baptismo de Jesus no Jordão também como simbologia solar e aquatica:
«Naquela noite, o rio Jordão tornou-se ardente de calor, quando desceu a chama (Jesus) para se lavar nas suas ondas. Naquela noite, o rio pôs-se a fervilhar e as suas àguas entrechocaram-se, para serem abençoadas pelos passos do Altíssimo, que vinha ao Baptismo...».
Esta associação da água e do fogo, assemelha-se à doutrina romana do Sol Invictus, e convém lembrar, já vem do oriente não-cristão, em que o solestício de inverno, em que se inicia o renascimento da natureza, era festejado com celebrações epeciais. No Egipto celebravam-se as festividade de Osiris, em que se chorava a morte de Osiris-Sol morrendo no solstício e depois renascia como Harpócrates, Sol-Nascente. Por essa ocasião havia uma procissão com archotes e a àgua do Nilo transformava-se em vinho e que também é a origem da «festividade da imersão» dos coptas actuais.
Esta religião solar dos antigos, ensinava que o fogo, princípio derivado do Sol, para produzir renovação, a vegetação e a vida universal, se unia à Terra, mas também em primeiro lugar à Agua. Nessa fase, o deus solar deve entrar em luta contra o poder das trevas, o qual assume a forma de um dragão que se oculta nas águas; O banho do deus solar destrói o dragão, princípio da morte, e unindo-se às àguas, fecunda-as e permite assim a renovação. Esquema este que já se encontrava na Babilónia , onde Marduque, montado no carro solar, derrota Tiamate, e na India, onde Indra derruba a serpente Vruta que conserva as àguas prisioneiras, e na Grécia, onde Apolo vence a grande serpente Pitan, e que, por intermédio hebraico da luta do Senhor Deus contra o monstro Rahab, chega ao cristianismo:
«Naquele momento, com a sua pesada e forte espada, o senhor vingar-se-á da idra, sepente fugidía da idra, serpente Sinuosa, e matará o dragão que está no mar» (Isaías 27, 1).
A benção das àguas no rito arménio também faz alusão a esta luta:
«chegado à margem do Jordão, Teu filho viu o Dragão oculto na água, abrindo as goelas impaciente, para tragar o género humano. Mas o teu filho único, pelo seu grande poder, pisou as àguas sob os seus pés e castigou duramente a fera vigorosa em conformidade com a predição do profeta: Esmagaste sob as águas a cabeça do dragão»
Existe portanto um paralelismo entre a renovação cósmica da natureza pelo Sol visível, que fecunda as àguas e a renovação do homem pela encarnação do verbo, Sol intelegível, que nos deu o baptismo, sinal de regeneração.
A teologia da salvação insere-se pois num simbolismo que recorda a regeneração periódica do tempo e do mundo pela repetição dos arquétipos: «cada novo ano retoma o tempo no seu início, repete a cosmogonia» (M. Elíade), assim como o baptismo repete o baptismo de Cristo no Jordão e o ensinamento do primeiro capítulo do Génese de que Spiritus dei ferebetur super aquas.
Como as àguas têm o poder de regenerar a vida porque nelas se banhou o deus solar, também as águas do baptismo têm o poder de regenerar os homens, porque foram tornadas fecundas pela união misteriosa entre Cristo e a sua Igreja, aquele como esposo, esta como noiva:
«Hoje a Igreja uniu-se ao seu Esposo celeste, porque no Jordão, Cristo a purificou das suas faltas» (antifona de Benedictus)
O elemento aquático está ligado ao feminino, tal como vimos, o solar ao masculino. A àgua é a Mãe-Terra geradora (mulher divina) ou a Serpente das àguas.
A relação que se estabelece entre estes dois elementos -Masculino/Sol e Mãe/Àgua-, de fundo cosmológico, tem correspondência nos simbolos, onde vamos buscar os princípios necessários para os compreender, porque fazem parte do pathos, que o cristianismo recolheu da herança tradicional e do judaísmo primitivo.
Primeiro, porque o cristianismo não é o judaísmo tradicional, mas sim o profetismo e correntes semelhantes, em que predominam noções de pecado e de expiação, que se exprime na espiritualidade saturada de pathos, em que o Deus Senhor dos exércitos do judaísmo, se transforma no Messias do cristianismo como filho do homem que vai servir de vítima expiatória, persseguido, esperança e salvação dos pecadores. Foi esta concepção de Cristo como rompendo com a lei e ortodoxia judaica, que levou o cristianismo a retomar no estado puro muitos dos temas típicos da alma semita, que depois com o paulismo form universalizados, independentemente das suas origens.
Porque o cristianismo primitivo era puramente espiritual e místico, não possuía simbolos cosmológicos. Na sua expansão encontrou as tradições das religiões antigas que utilizavam essa linguagem cósmica e, em grande parte, solar, e aceitou-as de forma a mais facilmente se universalizar.
Assim, doutrinalmente o cristianismo apresentou-se como uma forma de Dionismo, porque se formou essencialmente com vista a adaptar-se a um tipo humano de alma agitada, dilacerado, centrado na parte irracional do ser, pondo o ênfase na fé da salvação, retomando o tema plásgico-dionisiano dos deuses sacrificados que morrem e renascem à sombra das Grandes Mães.
Não é por acaso que a salvação no cristianismo se inicia por meio de uma mulher anunciada desde as origens e natural seja que o simbolo que a própria Igreja adoptou, fosse o da Mãe (Madre Igreja).
O orfismo favoreceu também a a aceitação do cristianismo no mundo antigo, como profanação da doutrina iniciática dos Mistérios e de outros cultos da decadência mediterrânica, em que existiam mitos de «salvação».
E destes mistérios, espécie de revelação primitiva, de simbolismo tradicional, o princípio sobrenatural foi concebido como «macho» e «fêmea», natureza e devir. No helenismo é masculino o «um» , o «que é em si mesmo», completo e suficiente; é feminina a díada, princípio diferente, o «outro» e portanto o desejo de movimento. No Induísmo, é masculino o espírito impassível – purusha- e feminina a prakti, matriz activa de toda a forma condicionada. Na tradição extremo-oriental este dualismo exprime-se por conceitos equivalentes,em que Yang–o princípio masculino- se encontra associado á virtude do céu e o yin, princípio feminino, à terra.
É possível a partir daqui estabelecer, por analogia, uma relação inesgotável de oposições:
Sol/Dia/Luz/Céu/Fecundação/Engendrar/Mas
Àgua/Noite/Trevas/Terra/Gestação/concebe
Estes princípios, sendo opostos, superam-se, quando o princípio feminino, cuja natureza consiste em estar em relação com o outro, se orienta para a firmeza masculina. Esta sintese atinge-se quando o elemento feminino se «converte» ao masculino, que o leva a existir para o princípio oposto. Então, em termos metafísicos, a mulher torna-se «esposa», potência «geradora», que recebe do macho imóvel o primeiro princípio do movimento e forma, conforme também se encontra, de certa forma, no aristotelismo e no neoplatonismo.
E como o cristianismo teve, em particular, de assumir desde inicio a herança das confrarias artesanais, sobertudo dos contrutores, que utilizavam também nos seus trabalhos um simbolismo cosmológico, ligado às antigas religiões, não surpreende encontrarmos temas desse simbolismo também misturados na arte sagrada.
É por isso que esta simbologia ficou gravada também nos restantes simbolos da pia baptismal de Vilar Maior. O elemento Solar já o expliquei numa primeira parte deste ensaio, nos círculos concêntricos da base. O elemento Feminino e a água está nas figuras femininas estilizadas junto ao rebordo, e na corda /serpente que divide aquelas dos círculos.
Estes elementos femininos representam a Mãe Virginal de todas as coisas que carrega o ceptro da fecundidade universal e relaciona-se à Vénus–Urânica e à Ishtar babilónica, considerada como a geradora das formas ideais ou os arquétipos a partir dos quais tudo se cria. O seu domínio é o oceano luminoso no qual se reflece o pensamento do criador, cujas ondas correspondem às Àguas do Génese, separadas pelo firmamento das àguas inferiores.
A própria cruz que também se encontra na pia baptismal é um simbolo desta união geradora. O traço horizontal – (sinal de subtração aritemética) é passivo, como a mulher que dorme e descansa no solo, o sentido da amplitude da extensão do mistério ao nível do nosso mundo. O traço vertical I é activo, como o homem de pé, desperto, consciente, o sentido da exaltação, da ascenção aos estadios superiores do Ser, ao céu. A actividade que atravessa a passividade, sugere uma ideia de fecundação, e filosoficamente a cruz diz respeito à união sexual de Deus unindo-se à natureza para engendrar o que é.
Como disse Monsenhor Landriot: «O simbolismo é uma ciência admirável que lança uma luz maravilhosa sobre os conhecimentos de Deus e do mundo criado, sobre as relações do criador com a sua obra, ... a chave da alta teologia, da mística, da filosofia, da poesia e da estética e ciência das harmonias entre as diferentes partes do universo e que constituem um todo maravilhoso de que cada fragmento pressupõe o outro e reciprocamente, um centro de claridade, um foco de doutrina luminosa.»
De facto, os simbolos teológicos, apenas são compreensíveis, na maioria dos casos em referência a símbolos cosmológicos que lhes estão subjacentes e servem de suporte. E a arte, pela figuração, como a da pia baptismal de Vilar Maior, ajuda a explicar estes simbolos cosmológicos.
Era o mesmo quarto no primeiro andar,
De há cinco anos atrás.
(como ela recordou)
Entrou, e beijando-a, foi-a despindo;
Os dois ardendo de desejo e saudade.
(ela reclamando que se despisse também)
Havia uma cadeira aos pés da cama
Onde eles dobraram a roupa.
(ela puxou o cobertor da cama)
Um beijo longo, e os corpos deitaram-se
Como se um ao outro eternamente pertencessem,
Apagando o tempo com um nó mais forte que eles,
Olhos nos olhos,
Mãos nas mãos,
Pele na pele,
A mesma respiração,
Naquela lenta luz
Que entrava pela janela
Entreaberta.
Agonizando no doloroso verde da serrania,
Afoga o vento o peito lacerado na ramagem.
E o carrascal escuro se põe em movimento
Coalhado de tristeza e agonia,
Confundido com os toiros na pastagem.
À noite, à noite de bréu, fria, ao vento
O carrascal redondo e sonolento estremece;
E levantando os cornos, pondo-se em movimento,
A sombra das almas, erguendo-se, cresce.
Ouve, meu amigo, o vento da serrania!
Oh que noite tão triste e fria,
Que o restolho faz chorar…
Noite de uma só lua;
Noite sombria e nua,
De mil almas a pastar.
Robalos,enguias,trutas,
Peixes que a barbas enxutas
Não pesca o proprio Nereu
Fizeram ninho nas grutas
Leito de rochas hirsutas
Do Cesarão Cesareu
Perto de Aldeia da Ponte.
Vai-se a serra,vai-se o monte,
Ficam as veigas humosas
Mas os peixes,quem os conta
Á luz do sol que desponta
Pescarias milagrosas
Cesarão ,sigla romana
De que a Ribeira se ufana
Que César foi quem lha deu
Mas deu-lhe o povo outro nome
Que o tempo jamais consome
É Cesarao Cesareu
(Manuel Leal Freire)
Raia Morena
Raia, terra da memória distante,
Meu cantar torna-se triste
Quando penso em ti.
Meu cantar de saudade,
Meu cantar, maia em flor,
Que te venho dar.
Raia, terra dos primeiros jogos da infância,
Do perfume dos carvalhos e dos castanheiros,
Das mansas águas da Côa,
Da aridez dos cabeços,
Das sombras frescas dos freixos,
Dos quintais, dos chãos e dos vergéis com os seus mimos,
Dos beirais amigos
Onde a minha alma cansada,
Ao florir da giesta,
Atravessando montes e rios,
Todos os anos
Regressa.
Raia, mulher morena
De olhos ciganos,
Rebelde contrabandista,
Coberta de maias,
Beijo a tua boca em fogo,
Que me fala de amores
Na penubra doce da tarde,
Quando ébria de luz e melancolia,
Atravessa a minha alma
Montes e rios,
Para voltar a ti.
Raia, mulher amada,
Não tenho outra coisa que te dar
Senão um ramo de maias
De intensa fragrância,
Colhidas no teu corpo em flor.
Raia, mulher rebelde,
Meu cantar é um ramo de maias
De intensa fragância,
Quando penso em ti.
Antioquía, que chegou a ser a capital do cristianismo no Oriente, tinha, nos seus arredores, um célebre templo dedicado a Apolo, onde se proferiam oráculos.
No tempo de Constantino (séc. IV) o cristianismo passou a relegião dominante, devido às perrogativas concedidas pelo imperador, começou a ocupar e consagar à nova fé vários templos pagãos, remetendo a religião antiga para os campos (pagus).
Foi o que sucedeu com o templo de Apolo, em Antioquía, em cujo àtrio foi construída uma Igreja com a campa de Babylas, bispo mártir de Antioquía.
O imperiador Juliano (331-363), que fora educado a paixão dos clássicos e deuses helénicos pelo seu pedagogo e tutor Mardónio, e instruído seretamente nas teurgias do paganismo místico, pelo neoplatónico Máximo de Éfeso, sucedendo no trono imperial ao seu tio Constantino, apostatou, estabelecendo o paganismo com um sistema eclesiástico, que imatava o da igreja cristã, e perseguiu o cristianismo.
Chegando em 362 aAntioquía, em passagem para a campanha militar do Médio Oriente, Juiano quis consultar o oráculo de Apolo, o que os sacerdotes recusaram, devido à profanação do átrio do templo.
Juliano mandou então derrubar a Igreja e transportar os restos de Babylas para lugar original, bem como limpar e purificar o precinto.
No fim deste mesmo ano, um grande incêndio, atribuído a vingança dos cristãos, destruíu parte do templo e a famosa estátua de Apolo, obra do escultor ateniense Bryaxis.
O poema de Konstandinos Kavafis, que se segue, glosa estes factos históricos e o triunfo, muitas vezes, pelo ferro e fogo, do cristiaismo emergente, que de religião perseguida se tornou, na viragem do séc. III para o IV, em religião persecutora:
Ficámos atónitos em Antioquia quando soubemos
Dos novos sucessos de juliano.
Apolo ele próprio exoplicou-se, em Dafne!
Oráculo não queria dar (estamos nas tintas!).
Não tencionava falar mnticamente, se primeiro
Não limpassem em Dafne seu recinto sagrado.
Incomodavam-no, declarou, os mortos vacinais.
Em Dafne havia muitas campas.-
Um dos ali enterrados
Era o prodigioso, da nossa igreja glória,
O santo, o triunfadosr mártir Babylas.
A este aludia, a este temia o falso deus.
Anquanto o sentia perto, não tinha lata
Para dizer os seus oráculos; nem pio.
((Aterram os nossos mártires aos falsos deuses.)
Arregaçou as mangas o irreverente Juliano,
Ficou nervoso e esganiçava-se: «levantem-no, levem-no
Tirem-no imediatamente a este Babylas.
Como ´de possível? Apolo incomoda-se.
Levem-no, peguem nele já.
Desenterrem-no, levem-no para onde quiserem.
Tirem-no, deitem-no fora. Andamos a brincar?
Apolo disse que se limpe o recinto sagrado.
Tomámo-la, trouxemo-la a santa relíquia para outro lugar;
Tomámo-la, troxemo-la em amor e honra.
E deveras bem prosperou o precinto sagrado.
Foi sem tardança, quando grande
Incêndio se propagou; um terrível incêndio:
E queimou-se o precinto sagrado e Apolo também.
Em cinzas o ídolo; para varrer, com o lixo.
Explodiu Juliano e fez correr o boato-
Que outra coiusa havia de fazer – que o incêndio fora posto
Por nós cristãos. Deixem lá que diga.
Não houve provas; deixem lá que diga.
O fundamental é que explodiu.
Konstandinos Kavafis
Negro
Mais negro que os fogueiros ào inferno;
Gordo,
Mais gordo que as mulheres de um rei negróide;
Bufão,
Mais bufão do que Noto, Eolo e Bóreas à compita;
Veloz,
Mais veloz que os golfinhos de Nereu –
Entrou na praça o boi galhardo.
Escarvando,
Olfacteou o argiloso chão,
Com um ar de Satã alucinado.
Depois,
Erguendo a cabeça,
Achou pequenas a pequenez da praça
E a amplidão dos céus.
Depois, ainda,
Mugiu
Em ódio clamoroso e clangoroso.
Então,
A praça entrou nos delírios do pavor.
O forcão
Quedou-se desamparado
No meio do terreiro
E os capinhas galgaram em pamco
O espaço que os separava das trincheiras.
Sozinho,
No meio da praça,
O boi,
Já gigante,
Mais se agigantava.
Empoleirado num carro,
Exalçado a lenha
E enfeitado a colchas,
O tamborileiro rufava,
Querendo rebentar o velho bode.
Então os solteiros ganharam coragem
E, saltando aos magotes para a arena,
Imobilizaram o boi
Entre os aplausos dos homens
E os gritos das mulheres.
Manuel Leal Freire

Ricardo Paula, Pintura "o abraço do mar III"
Como se o mar me prendesse os braços
e eu ficasse no chão sem vontade
de fazer e de construir
como se os lábios
ficassem presos
e fosse impossivel sorrir.
Sorrir aos amigos
e escutar as conversas
as histórias da força
dessa luta de quem recomeça a viver
Como se o mar me prendesse os braços
e fosse como a corrente que prende os barcos
e eu ficasse no chão sem vontade.
Como se a liberdade
fosse aquele acto
que cai e se levanta
como se faz no teatro.
Lobo Duarte

Muitas àguas leva a Côa,
Junto à vila do Sabugal;
Quando as àguas vão crescidas,
Ninguém passa no pontal.
O meu rio vai tão cheio,
Que não o posso atravessar!
Vai cheio de mil dores...
Ninguém o póde passar!
Foje a Còa, fujo eu,
Cada um com o seu fado,
Sempre em direcção ao mar,
Qual de nós o mais pesado?
Eu levando meus desgostos;
Ele, a rama dos salgueiros...
Qual de nós o mais pesado,
Correndo ambos ligeiros?
Mas debaixo da velha ponte,
Onde a àgua faz remanso,
Quando beija os salgueiros,
Tem a Côa bom descanso.
As àguas do arco grande,
Aos pés da velha muralha,
Em noite de lua cheia,
Há lá melhor mortalha?
O luar batendo nas àguas,
E nos salgueiros como ladrão,
Assim me roubou a Còa,
A alma e o coração.
Estas àguas da velha ponte,
Por querer seus amores,
Na alma me deixaram,
Mil penas e mil dores.
Mansas àguas tem a Côa,
E salgueiros ao Luar!
Mas quando a cheia é de máguas,
Ninguém as póde passar!
Obs: O meu avô Lourenço Martins, devido à sua conhecida paixão da pesca, foi o homem do concelho do Sabugal que mais conheceu e amou o Côa. Ele tratava o rio como mulher; «a Côa», pela fertilidade das suas àguas. Este poema é, glozando uma cantiga de Antero de Quental, homenagem aos dois.

Alla me tienes contigo
Serranica de aragon
El alma y el coraçon.
Serranica tu querer
Me tiene passado en ti
Yo por tuyo me hazer
He me desecho de mi
Dende el dia que te vi
Me robou tua perficion
El alma y el coraçon
Mil penas y mil dolores
Porquerette tus amores
Serranica me han robado
En alma me han dexado
Tus oios me han salteado
En bosque como ladron
El alma y el coraçon.
Tienes me outro totoznado
En nada perezco yo
Sy soy algo soy traslado
Del rostro que dios te dio
Tu vista me salteo
Tudo con mucha razon
El alma y el coraçon.
Si yo antes mio era
Luego en verte tuyo fuy
Que tu vista lastímera
Me lhevo luego tras si
Donde estoy estoy en ti
E assi tienes ocasion
De tenerme el coraçon.
El querer queyo te quiero
Por te ver linda e galana
Es causa que todo entero
Alla me tengas serrana
Robaste me de inhumana
Con tu rostro y discrecion
El alma y el coraçon.
El dia que te mire
Passe en ti my proprio ser
El mio mismo ser
Por mas cerca te tener
Tu procuras me traer
El alma y el coraçon
Presos en tu perdicion.
(Vilancete do Marquês de Santilhana in Espejo De Enamorados, séc XVI)
Konstantinos vivia na megapolis de Atenas; foi a crise que o levou a desfazer-se do apatamento citadino, e regressar com a mulher à aldeia paterna.
Hoje vive de transportar os turistas pelos caminhos ingremes e sinuosos da colina, entre a praia e a aldeia, com as suas duas mulas.
Recuperou a casa paterna e, numa pequena depressão da colina, para lá da aldeia, em pequeno campo herdado, tem uma horta, meia dúzia de ovelhas e um velho burro.
A esse burro anónimo, que aluguei para companheiro acidental da minha viagem solitária, tive eu a honra de pôr nome.
Não é que o bicho, a certo ponto do nosso passeio, tomado pela mosca, arrancou comigo em correria desabrida, escarpa abaixo?
Nem os rogos e vergastadas o estancaram; salvou-me um proverbial muro, sobre o mar, onde esbarrou o animal.
Por isso, refeito do susto, dei-lhe o nome de Sócrates; o político, não o filósofo...
Konstantinos e a mulher gostaram:
- Socrates? Very nice, indeed!
Não perceberam a “nuance”...
D’aquele esguio telhado
-Onde tu sabes que eu moro,
Eu acho os astros d’um ouro
Já bastante mareado!
Nenhum deles vai à trança
Dos teus cabelos cumpridos!
Por isso meu peito lança
Ao teu telhado gemidos!
Se eu fosse Deus, minha amada!
-Dar-te-ia, Satan m’ esfole!
Uma cartinha fechada,
Servindo de lacre o sol.
Mas sou um prédio em ruinas!
-Não tenho nada comigo,
Sou um mendigo,
Que tomo o sol de esquinas.
Divago roto e contente!...
-Odeio um lente – e o filósofo!
E sob este azul clemente,
Triunfo alegre e faminto!
Meus deuses são Vico e Dante!-
E gosto, no meu caminho,
Encontrar Minerva Amante,
E as Musas cheias de Vinho.
Como um barco sem amarra,
Navego, turgidas velas,
E desafo as estrelas,
À noite, sobre a guitarra|
E a cabelo louro ou preto-
Fragilidades de barro!
Envio sempre um soneto
Na mortalha de um cigarro!
Erro sem norte e sem tino!
Ninguém me’estende o seu braço.
Quer-me por força o destino
Comendador ou palhaço!
Post scriptum:
Desculpa-me, flor amada!
-Ó minha musa divina!
Não fui hontem à escada,
Porque empenhei a batina!
(Gomes Leal, in Claridades do Sul)
PS: Resumindo; os copos fazem mossa!

A lua já se pôs,
As Plêiades também:
Meia-noite; foge o tempo,
E chora um mocho,
No silêncio do jardim.
Vem, meu amado.
Vem até este gracioso bosque de macieiras, onde a água fresca canta entre as raizes das árvores, e a trémula sombra da figueira desce um sono pesado sobre as minhas pálpebras.
Vem, meu amado.
Trancemos juntos multiflores coroas de ramos de sândalo e murta,
Que pomos em meus cabelos,
Vem, segreda-me palavras doces ao ouvido, e minha alma te ouvirá cativa e amorosa, e as nossas noites serão como os regatos tranquilos cobertos de flores primaveris, ou roseiras brancas, cujo perfume a brisa sopra docemente, em fragâncias doces ao olfacto;
E meus lábios serão teus lábios, meus cabelos serão os teus cabelos, como a raiz é da flor, a flor é da abelha e da abelha é do pólen.
Vem, decansa a cabeça nos meus seios, bebe a doçura da minha boca, que eu sou o mel de que teus lábios gostam.
Vem, amado do meu coração!
Vem; vem, que toda eu te quero!
Vem; procura o calor das minhas coxas,
Que começam a estremecer;
E verás como, chamando-te com as minhas mãos, e puxando-te para o meu leito, um fogo urgente me sobe pela carne, um frio suor me recobre;
E como, no transporte doce da minha alma,
Sacudindo os cabelos orvalhados de estrelas,
Pálida, perdida, febril,
Um frémito me abalando...
O corpo se me arrepiando...
Respirando a custo...
Caio num langor profundo...
E morro.
Cai a lua, caem as plêiades;
Meia-noite; passa o tempo,
E eu, aqui deitada, sozinha,
Ouvindo o pranto do mocho,
Nada mais ouvindo que o pranto,
Morrendo de tristeza.
(discussão política)
A política é, como a vida, caros leitores, vontade; e a política vontade de poder. Tudo nela depende como o poder estabelecido é orientado e da vontade de poder, de participação poítica, dos cidadãos.
Como dizia Nietzshe in La volunté de pouissance, Paris, Gallimard, Bianquis, II, § 41, a vida «é para nós a forma mais bem conhecida do ser» isto é, «o ser, não temos dele outra representação além de o facto de vivermos (ibid. §8) e «O Ser é a generalizaçao do conceito de viver (respirar), ser animado, querer, agir, devir» (ibid., I, § 151).
A vida é pois, vontade de poder, de viver, segundo a proclamação de Zaratrustra «onde quer que encontrei o vivente, encontrei vontade de poder». Lógico é que, se Ser é Vida, e se Vida é Vontade de Poder, então a vontade de poder é a essência mais íntima do ser (Nietzche in Para além do Bem e Do Mal § 36). Resumindo: Toda a realidade humana é no fundo, vontade de poder.
Vontade de Ser é Vontade de Poder!
Se o Ser é «essencialmente o esforço em direcção a mais poder» (§II, 41), a vida real resume-se a uma luta permanente pelo domínio, pelo poder; e a sociedade não é mais que uma composição de relação complexas de forças intercruzadas, como também defendem Deleuze e Faucault. Que visam o poder e o seu aumento.
A consequência deste raciocínio é toda a realidade social e histórica ser analisada em termos de relação de forças. «As relações de poder são imanentes a todos os tipos de relações sociais» (Facault, Surveiller et punir, Paris, Gallimard, 1975, p.140). E assim sendo, até o direito não é mais que uma tentativa de eternização de um momentâneo equilíbrio de poder, por parte de uma classe dominante em determinado período histórico (ainda Facault in La volunté de savoir, Gallimard, 1976, pp.121 e seg).
Por aqui ja se percebe que a minha ideia do direito, é, à semelhança de P. Bourdieu, a da perpetuação das relações de forças socialmente existentes, num esquema, não de legitimo ou ilegitimo, mas de dominação e submissão.
Neste persepectiva, tanto vale a lei e o estado de direito, como a resistência à lei e ao estado de direito. É uma questão de domínio, e não, numa perspectiva aristotélica ou Kantiana e teleológica do mundo e do ser, de virtude, de justo e injusto, de bem e mal.
De facto, há em relação aos factos sociais naturais ou históricos, como defende Karl Popper (in A sociedade aberta e os seus inimigos, 2 vols, Londres, Routledge and Sons, 1945, trad. Parcial Bernard e Monod, Paris, Seuil, 1979), dualismo de factos e de valores; nunca um monismo trancendental ou dogmático.
Em consequência, sendo a nossa vontade ser livre nas suas escolhas, a ética não tem base científica porque as normas não são constatação de fenómenos, mas enumeração de regras de conduta, e porque não existe dimensão ética da reflexão e na escolha.
Porque assim é, «impossível se torna demonstrar cientificamente um juízo de valor ou imperativo moral» e as «normas humanas, e por isso conevencionais, são puramente arbitrárias» (Popper, ibiden, pp.186 e segs.).
Se assim não fosse, que legitimidade tinha a cidade de Atenas em condenar Sócrates à morte, por corrupção da juventude?
Tudo na vida social, pois, se resume a uma questão de conflito de forças; as forças activas, de movimento ascendente, representando o próprio movimento da vida (vontade de poder) e as as forças puramente reactivas e defensivas (poder estabelecido), exprimindo uma vontade de poder doente, decadente, petrificando a vida para apenas salvaguardar o poder adquirido (in Deleuze, in Nietzche e la philosofie, Paris, PUF, 1962, pp 186 e segs.). As primeiras correspondem a fenómenos de resistência; as segundas, a de perpetuação de poder.
A resistência não é, por isso, mais que a outra face ontológicamente inevitável do poder estabelecido que, sendo dominante, se opõe sempre à vontade de poder ascendente, e como tal, ao próprio movimento natural do Ser na conquista do poder.
«A vida torna-se resistência ao poder quando o poder adopta como objecto a vida» (Deluze op. cit. P. 98); e onde existe resistência ao poder estabelecido, «é a vida que se vira contra o poder que pretende controlá-la» (ibiden).
Resumindo; tal como respirar é ser, resistir é viver. Direito à vida, é o mesmo que direito a resistir!
E em que consiste resistir?
Resistir é discutir, criticar, questionar, argumentar e decidir a respeito do poder.
O que me permite formular o enunciado de que “todos os membros de uma comunidade política devem ser reconhecidos como agentes validadores da decisão política, dado que são, em todas as suas acções e expressões, interlocutores virtuais do poder, e que a legitimação deste não pode renunciar a nenhum interlocutor nem a nenhuma das suas contribuições virtuais para a discussão política”.
Isto é, numa transposição da ética da discussão de Karl Apel e Jurgen Habermas e da lógica da discussão prática de Alexey para a política, da mesma forma que «todo o sujeito capaz de falar e de agir deve poder tomar parte em discussões» (R. Alexey in Eine Theorie dês praktischen Diskursses, W. Oelmuller (ed), Paderbon, 1978), todo o cidadão pode intervir publicamente para discutir e questionar poder.
É isto que define a democracia participativa, uma espécie de “socialismo pragmático”, assente na liberdade de discussão e participação, na validade da argumentação independente da pessoa ou entidade que a emite, e legitimidade para discutir e questionar todas as decisões do poder, incluindo as manifestações do próprio poder.
Se numa discussão o regulador da validade dos enunciados é a verdade; uma verdade que não é a correspondência entre a afirmação e os factos, mas aceitabilidade racional, consenso geral, a Universalidade; no domínio do poder, é a exigência de consenso geral na busca do justo, que representa um papel análogo de validação.
A intervenção política, como a discussão, que é animada pela escolha da norma mais justa, deve ser animada também pelo ideal de justiça, a conquista de um poder mais justo, uma sociedade cujo objectivo final é o bem, como refere Platão no “político”.
E que é o Justo?
Para mim, é o tal Universal, consenso geral, que estabelece o que é o bem comum de uma concreta comunidade política. É, no fundo, o resultado mais razoável, no termo de uma discussão crítica, sucessivamente renovada e dinâmica, que nos permita a melhor adequação das normas; e no âmbito da política, o consenso universal de bem comum de uma comunidade, que resulta da discussão, pelos seus elementos, do poder político.
Discutir o poder é, por isso, a mais nobre actividade de cidadania, porque do resultado dessa discussão é que uma sociedade avança, encontrando as soluções consensuais que permitem afirmar que as decisões políticas correspondem ao bem comum.
Uma sociedade em que o poder instalado tem força para calar sistematicamente a voz dos que resistem ao poder e discutem esse poder, não permite a argumentação de novas ideias, novos consensos, que são a razão do progresso social e garantia de legitimidade das decisões políticas.
É que onde não se manifesta vontade de poder, não se gera discussão política…
Onde não há discussão política, não se produzem consensos universais…
E quando não há consensos universais, as decisões políticas carecem de legitimidade!